Metamorfose Impressionante

Renato Maurício Prado – O Globo – Esportes – Terça-feira, 26.8.2014

Nem o mais otimista dos rubro-negros esperava tanto. Nem Vanterlei, em seus sonhos mais delirantes. Seis jogos, cinco vitórias (quatro consecutivas) e uma derrota. Aproveitamento de 83,3%! O Flamengo era o lanterna do campeonato quando o técnico assumiu. Já está em décimo primeiro, a cinco pontos da zona de rebaixamento e a nove do G-4. O que acontecerá daqui pra frente?

É recomendável cautela nas expectativas – e Luxemburgo é o primeiro a defender a postura de pés no cháo e foco na fuga do rebaixamento. Está certíssimo. Numa avaliação isenta de paixão, são evidentes as limitações do elenco rubro-negro. Impossível compará-lo aos melhores do Brasileiro, como Cruzeiro, São Paulo, Internacional, Corinthians e Fluminense. E além dos cinco primeiros, também Atlético-MG, Grêmio e Santos são, no papel, superiores ao Flamengo. A partir daí, não, o que tornava absurda a posição que o time ocupava até a chegada do novo treinador.

Mas, afinal, o que fez Vanderlei? Em primeiro lugar, conseguiu devolver a confiança ao grupo. A imagem do saco de cimento nas costas (além de ser uma jogada de marketing) acabou fazendo com que todos se motivassem para se empenhar mais nos treinos e nos jogos, acreditando nas palavras do técnico que lhes garantia que, com o trabalho dobrado, os resultados viriam. E a vitória sobre o Botafogo, no primeiro jogo sob a nova direção, ajudou um bocado no aspecto psicológico.

Além disso, em termos táticos é possível ver uma preocupação bem maior na parte defensiva. Zagueiros jogando com seriedade (sem enfeitar ou se mandar para frente); muita gente marcando no meio-campo; ajuda dos homens de frente, ocupando espaços e combatendo, e doses elevadas de suor, durante os 90 minutos.

Mas não doi somente na estratégia que o Fla evoluiu. Alguns jogadores têm contribuído significativamente para a ascenção técnica: Canteros (que ainda erra alguns lançamentos, mas impressiona pela desenvoltura no apoio e a eficiência nos desarmes), Lucas Mugni (sempre que entra no segundo tempo) e o brasileiro naturalizado croata Eduardo da Silva, que marcou três gols decisivos nos últimos quatro jogos, se destacam. E é justo ressaltar ainda o desempenho de Éverton, um dos melhores desde que Luxemburgo assumiu.

Nem tudo, porém, são flores. Contra o Atlético mineiro, o treinador errou ao escalar quatro volantes (e nenhum armador) no meio. Eduardo e Mugni o salvaram no segundo tempo. Não dá pra entender, também, a insistente escalação de Arthur como titular – apesar do elogiável esforço em campo, não acerta nada. Mas, como o técnico afirma que o brasileiro croata ainda não tem fôlego para 90 minutos, a torcida terá que rezar pela volta de Alecsandro ou a estreia de Élton, que está longe de ser craque, mas melhor que Arthur é.

Independentemente disso, no balanço geral desse início de trabalho é inegável o sucesso de Luxemburgo – que há sete temporadas não realizava campanhas à altura da fama que chegou a ter de melhor técnico do Brasil. Agora é esperar o desenrolar do campeonato. Por enquanto, Vanderlei vem fazendo muito bem ao Flamengo, assim como o Flamengo o ajuda a recuperar o prestígio perdido. A conferir as cenas dos próximos capítulos.

A dentada metafísica

Crônica escrita por André Gardel em seu blog “Crônicas à moda Rodriguiana” e gentilmente cedidas para o Na Zaga e Nas Artes.

Amigos, depois de passar o dia escrevendo na redação do jornal, resolvi abandonar o paletó e dar um passeio à beira-mar ao cair da tarde. A cidade esplendia de pessoas de todas as nacionalidades, tamanho, raça, cor… a vida abrindo-se em leque pelas calçadas, múltipla, variegada, parecia querer abanar o Cristo de pedra-sabão com seus movimentos, em conjunto, lentos e magistrais… uma babel de línguas enfeitiçava o ar, dando voz ao silêncio da maresia, fazendo do Rio a terra de toda a gente, como um dia falou, em tom menor, o poeta Manuel Bandeira. A Copa das Copas terminara a sua fase de grupos e as pessoas andavam pelas ruas como se passassem por portais entre, no mínimo, duas dimensões: a dos fantasmas da volta da rotina cotidiana e a do encantamento vivido diante das pelejas e gestos imprevisíveis deste mundial…

Cada um que exibia a camisa de seu país, e dos clubes de futebol mais amados de seu país, as envergavam como estandartes de luz, sequiosos por fazer história. O que me trazia, em quadros vivos à memória, ações e gestos marcantes ocorridos nesta Copa: seja por sua grandeza trágica; por ironias do destino; pelos impulsos revelados no coração da realidade, advindos das lonjuras do inconsciente mais profundo, individual ou coletivo; seja pelo atavismo cultural menos óbvio e mais passional possível.

Quem, em sã consciência, diria que a Costa Rica seria a sobrevivente vitoriosa, sem um arranhão, do Grupo da Morte? Quem diria que seleções campeãs ou tradicionais como Espanha, Inglaterra e Portugal voltariam para a Europa no primeiro navio de carga que atracasse no cais? Arúspices, xamãs, pais de santo, pitonisas, videntes de fundo de quintal seriam desmoralizados e morreriam de fome se vaticinassem, em êxtase, tais resultados.

E os lances, as atitudes, os movimentos – dramáticos e incontornáveis – que emergiram dos verdadeiros campos de batalha em que se desenrolaram as pelejas nessa Copa do ataque de coração aberto, do inesperado, do imprevisível? E a cotovelada nas costas dada pelo meia de Camarões no atacante croata? E os pênaltis não marcados e os marcados de modo duvidoso, a partir de representações canastronas dos jogadores atores de ocasião? E o lateral uruguaio que se recusou a sair de campo, ainda que combalido, não querendo abandonar por nada a arena de combate? E a dentada inapelável, infantil, arcaica, voraz, cega de Luisito Suárez? O que dizer desse gesto vindo das regiões mais insondáveis do ser? Que rito mágico quer recuperar a dentada metafísica do atacante da seleção Celeste Olímpica?

Lembro que em novembro de 1957, numa crônica para a Manchete Esportiva, escrevi sobre uma cusparada que Dida, jogador do Flamengo, lançou na bola, antes de Osmar, do Canto do Rio, bater uma penalidade nos últimos minutos do jogo, que daria o empate para o time de Niterói, perdendo então, àquele momento do match, por 2 a 1. Chamei-a de cusparada metafísica e a elegi como meu personagem da semana. Sim, a cusparada que não deixou a bola entrar e deu a vitória ao Mais Querido. O que moveu o atacante uruguaio, reincidente pela terceira vez, ainda que sabendo-se sob os mil olhos do monstro das câmeras de tevê, para repetir de novo a mesma ação obscura? Quais forças, místicas e profundas, o levaram àquela dentada transcendente e insólita?

E justo no momento em que tais reflexões me visitavam, surge à minha frente o Filósofo Botocudo, o sábio pós-moderno das florestas tropicais. O xamã do tronco lingüístico Macro-Jê vinha com andar elegante, como se desfilasse numa passarela internacional de moda, de bermuda jeans, sem camisa, de óculos escuros Maui Jim, com os seus indefectíveis botoques labiais e auriculares, colares e cocares de penas, o corpo untado de cinza, jenipapo e urucum, com um escapulário escrito Uruguai sobre os ombros e pescoço, segurando em uma das mãos o seu iphone.

Ao me ver, abriu um sorriso familiar, íntimo, de quem encontrava, finalmente, um irmão de alma e tribo, após longa jornada intangível pelos universos místicos e insondáveis, que visita com freqüência, a fim de negociar com os milhares de espíritos da natureza e da cidade. Sem poder conter a felicidade de encontrar criatura tão especial e amiga, dei-lhe um abraço fervoroso, fazendo-lhe, inevitavelmente, a pergunta que não quis calar: “Por que escapulário do Uruguai, sábio tropical? Abandonou a seleção canarinha, a nossa pátria de chuteiras?”

O Filósofo Botocudo, então, respondeu, pausadamente, de modo claro e firme, como quem conversa em pé de igualdade com montanhas, árvores milenares, noites cósmicas, penhascos e prédios de aço e vidro:

– Sr. Nelson minha alma transborda de contentamento ao reencontrá-lo, mestre das palavras encantatórias! O Sr. é o único homem branco que sabe manipular as potências dos significantes flutuantes, que abrem os portais que levam às muitas dimensões e mundos espirituais! Só o Sr. pode compreender a homenagem que estou prestando ao descendente contemporâneo da tribo amiga dos guaianás, Jês do Sul, cujos antepassados foram nossos antigos aliados em batalhas épicas contra tupis e colonizadores europeus filhos de Maíra. O bravo guerreiro Luisito Suárez merece cantos e danças imemoriais, pois apresenta ao mundo um de nossos rituais mais sagrados e tradicionais: a antropofagia…

Grande mestre do Brasil Profundo, respondi, muitos o estavam chamando de canibal, mas parecem não conhecer os ritos de nossos antepassados. Canibal come carne por fome e/ ou ferocidade, sem os cuidados detalhados dos ritos sagrados. O antropófago, por sua vez, realiza um ritual cósmico, de incorporação das forças do inimigo potente. Suárez fica a meio termo: tem um pouco do vale-tudo, de briga de rua, de teste dos limites das crianças; e tem o rito futebolístico do artilheiro solitário, brigando sempre com dois ou três zagueiros, que, para superá-los usa artifícios inesperados. Mas o que me parece mais interessante nessa história toda é que, mesmo sob o império do monstro de mil olhos das câmeras de tevê, seu instinto mais primal venha se expor de modo serial, desreprimido, incontido…

Nesse instante, vejo atravessar a rua, com seu casal de filhos lindos, um em cada braço, o “negão de ventas raciais”, o descendente bantu tricolor de coração. Estava vestido para banho de mar, assim como os filhos e, quando me viu conversando com o Filósofo Botucudo, abriu um sorriso de uma simpatia volatizada, captando a vibração que estava no ar, presságio de grandes vitórias e festas triunfais. Depois de dar um abraço apertado em mim e outro no sábio pós-moderno zen das florestas tropicais, o afrocarioca, sem meias palavras, entabula uma falação iluminada sobre o escrete, a imprensa e a torcida brasileiras:

– Sr. Nelson, está na hora do escrete brasileiro abandonar a humildade e o bom-mocismo! Se quer ser campeão, tem que entrar na guerra de foice no escuro que é uma Copa do Mundo. Todos estão dando a alma em campo pelos seus países, todos estão, inclusive nós; contudo, todos estão reclamando dos árbitros, fazendo toda sorte de pressão, dentro e fora de campo, disputando palmo a palmo o terreno e o ambiente em que se dão as batalhas! Nós parecemos dar beijinhos na testa de nossos inimigos, abraços no larápio que nos rouba em campo, tapinhas nas costas de quem acabou de nos pisar na cara! Veja o caso do pênalti genialmente cavado por Fred: a imprensa, os “entendidos” em geral, o povo das ruas, todos condenaram como se o nosso artilheiro do engenho e arte estivesse espalhando a peste na avenida! Não dá, Sr. Nelson, assim não dá! O politicamente correto é a outra face, mais adestrada e submissa, de nosso complexo de vira-latas! Temos que mudar isso já ou não seremos hexa! O futebol poético do Brasil, mesmo depois de anos de técnicos e burocratas tentando enquadrá-lo no futebol de prosa europeu, ainda é o melhor e mais bonito, o mais plástico e elegante de todos! Vamos ser campeões na categoria, na elegância, no peito e na raça! E chega de humildade politicamente correta! Agora é a hora de convencimento e empáfia! Sim, a hora de mostrar atitude e autoridade!

O “Negão de ventas raciais” parecia emanar luz por todos os poros, só faltou levitar e sair andando sobre as águas. O Filósofo Botocudo silenciou em respeito ao êxtase do descendente bantu, parecendo dialogar interiormente com todos os exus que dançavam pelo espaço impalpável ao redor do afrocarioca. A menininha mais nova puxou o rosto do pai numa carícia e disse, olhos nos olhos: – Papai, vamos dar um mergulho? Essa simples frase doce e sincera, extraordinária pela sua singeleza e tempo preciso, fez com que o “Negão de ventas raciais” retornasse a sua condição de pai cuidadoso e amoroso: – Claro, meu amor! Respondeu. E saíram os três alegres correndo e brincando pelas areias da cidade maravilhosa, rumo às águas azuis do mar!

Humilhados e Ofendidos

Crônica de André Gardel publicada em seu blog Crônicas à moda Rodriguiana e gentilmente cedida para o Na Zaga e Nas Artes.

Amigos, após os quatro primeiros dias de jogos, tudo indica que essa será a Copa das Copas! A Copa do Mundo que, mais do que meramente histórica, arquivada nos registros oficiais como mais um evento exótico nos Trópicos, ficará impregnada na alma e nas retinas de todos como a Copa dos lances e gestos polêmicos, patéticos, trágicos, cínicos, políticos, imorais. Os idiotas da objetividade, os lorpas e pascácios irão me perguntar: – imorais, mas por quê?

Sim, imorais! Quer maior imoralidade do que aquela abertura pífia da Copa, de escola primária, de um bom-mocismo inaciano, apresentando um Brasil sorridente e submisso, num país com uma pletora de artistas e criadores vitais, experimentais, radicais, pulsantes, e que começa a fazer presente seu incontornável destino de país do futuro? Quer coisa mais imoral do que os Narcisos às avessas, que cospem na própria imagem – já que o futebol é a pátria em calções e chuteiras -, tratarem o pênalti genialmente cavado por Fred, o artilheiro do engenho e arte, como um gesto execrável, quase um acinte público, numa tradição futebolística de grandes heróis – Nilton Santos, Luizão, Rivaldo, Pelé, Branco – que ajudaram a vencer pelejas homéricas com ginga e brilhantismo na canastrice melodramática de ocasião? Quer maior imoralidade do que a acachapante derrota, proibitiva e irresgatável, sofrida pela Espanha, atual campeã do Mundo, humilhada sem dó por um 5 a 1 vingativo e desmedido aplicado pela Holanda, vice do Mundial de 2010? Quer coisa mais imoral do que o desgoverno dos gastos astronômicos, para além do padrão FIFA, num país carente de justiça social, saúde, educação e transportes dignos, na organização deslavada de uma Copa que poderá coroar o fim definitivo do complexo de vira-latas do brasileiro?

Bem, eram nessas e em outras coisas que eu pensava quando, inesperadamente, ao dobrar a esquina da Álvaro Chaves com a Pinheiro Machado, em Laranjeiras, vejo a Loura Indignada passando, como um furacão, na parte de fora da calçada. Ao me ver, estanca o passo, ilumina-se com um fulgor que só os tricolores possuem – que os distinguem de todos os outros, e que permite que se reconheçam em meio à multidão -, corre em minha direção e me abraça como se nosso encontro casual estive marcado há milênios. Depois dessa efusão de afeto pelo reconhecimento de um irmão de paixão e alma, começa a desabafar, ritmando o movimento do dedo indicador e do pé direitos, simultaneamente, a cada ênfase dada às palavras, emitidas com a dor de Valquíria wagneriana, armada de elmo e lança, recuperando o herói morto em campo de batalha, para participar do exército mítico de Odin:

– Sr. Nelson, o que está acontecendo com essa nação? É o fim dos tempos; o mundo realmente está de ponta cabeça! O Sr. está acompanhando o achincalhe, o quase apedrejamento em praça pública que estão querendo impor ao nosso artilheiro-mor, o craque do engenho e arte? Estão ofendendo descaradamente quem nos deu dois títulos nacionais e a Copa das Confederações! Meu deus! Bem que o Sr. escreveu que toda unanimidade é burra, que o videoteipe é burro, e que as hienas, abutres e chacais, os “entendidos”, sempre rosnando de frustração, voltaram a influenciar os brasileiros com suas asneiras, agora a partir da verdade gélida do monstro de mil olhos da tevê, com seu detalhes e miudezas, com seu slow-motion, com seu replay desapaixonado! Se as câmaras dissecam as imagens e comprovam a verdade dos fatos, pior para a verdade e muito pior ainda para os fatos! E a vida vivida no presente? O acontecimento que aflora no calor trágico das batalhas campais, em que os jogadores e os juízes atuam movidos por um complexo que une instinto, intuição, inteligência, reflexo, tudo junto, ao mesmo tempo, sem segunda chance, tendo que tomar decisões de vida ou morte a cada segundo e que faz do futebol a arte viva que é? Hein, Sr. Nelson, me responde! Estão criando um esporte novo, uma outra coisa, um dispositivo politicamente correto, que pode ter o nome que quiserem, menos o de futebol!

Ainda tentando me recuperar da tontura que as flechas giratórias de palavras, lançadas pela deusa anglo-saxã, me causaram, balbucio uma resposta tímida, cuidadoso e respeitoso diante do êxtase indignado da deidade:

– É, amiga tricolor, os tempos estão mudando… Mas digo, sem retoques, que Fred sofreu um pênalti óbvio, ululante, e que o zagueiro croata puxou-o pelo ombro, não de modo descarado, mas puxou-o. O juiz viu e marcou. Estamos tão acostumados com a verdadeira luta greco-romana que zagueiros e atacantes travam nas grandes áreas dos jogos do futebol brasileiro que, quando um juiz japonês marca falta num toque assim, existente porém despretensioso, desacreditamos na vítima e enchemo-nos de fúria e repulsa. A beleza plástica e dramática do lance, contudo, não pode ser desprezada e esquecida: a queda maravilhosa de nosso artilheiro, que atuou como um ator acionado representando Aquiles sendo flechado no calcanhar, numa tragicomédia escrita por um Victor Hugo embriagado… Deixa estar, Loura Indignada, continuei, a Copa está apenas começando, tenho certeza que o caneco será nosso, e que Fred, o artilheiro do engenho e arte, junto com Neymar, o bailarino do improvável, vão fazer a multidão brasileira subir pelas paredes como lagartixas profissionais, se pendurar nos lustres, dar cambalhotas de entusiasmo báquico!

Nesse instante, a deusa da Aurora Boreal é atravessada por um raio lúcido, me olha com olhos vítreos, abre um sorriso de arco luminoso e responde:

– Sr. Nelson, por isso que eu te amo! O Sr. é um poeta, vive possuído por forças sagradas, telúricas, brasileiras! Isso, a Copa está apenas começando! Fred vai calar a boca de muita gente! Principalmente dos “entendidos”! Isso mesmo, Sr. Nelson! Maravilhoso! Viva! Salve! Evoé! Um poeta delirante!

E virou-se num ímpeto repentino, como se fosse subir em seu cavalo alado de Valquíria, e seguiu em frente, andando com a elegância de uma rainha inglesa e gargalhando alto como se tivesse baixado a pombagira, repetindo as minhas últimas palavras com voz misteriosa… se pendurar nos lustres… entusiasmo báquico… lagartixas profissionais…

Como que aliviado, após o contato com aquela potência vital ctoniana, segui o meu caminho rumo ao jornaleiro, a fim de ler as manchetes dos jornais penduradas na lateral da banca. Todas louvavam o feito épico da seleção da Holanda, a divina goleada aplicada na Espanha, a invencível armada que vinha dominando o cenário futebolístico nos últimos anos, com seu estilo tic tac, com seus craques pacientes e precisos, com seu futebol envolvente, encantatório, de terço rezado em silêncio católico. Contudo, toda aquela euforia feérica da imprensa e do homem das ruas, com a certeza absoluta de que tinha despontado o verdadeiro candidato ao título, a seleção holandesa, e que as pretensões de manutenção do reinado espanhol tinham definitivamente naufragado, me incomodava e inquietava.

Enquanto tentava decifrar a sensação que me visitava, sinto pousar em meu ombro, de modo lânguido e enigmático, um objeto que me causou, de imediato, calafrio. Assim que me viro, percebo que fora tocado pela palma macilenta e lívida da mão de um velho conhecido: o Atleticano Melancólico, o Romântico das Alterosas, sempre atravessado pela coita amorosa, mas que, ao me reconhecer, desprendeu um rápido brilho do fundo dos olhos tristonhos para, logo a seguir, se perder na retina, retornando, assim, para o seu estado mórbido constante de abatimento profundo. De modo pausado e olhando para o infinito, o Atleticano Melancólico me disse as seguintes palavras:

– Sr. Nelson, é sempre um prazer revê-lo… O Sr. não imagina quanto… Vejo que o Sr. está tendo, talvez, o mesmo pressentimento que eu. 5 a 1 é um placar monstruoso, fatal, que promove duas vítimas, a que perde e a que ganha. Ao contrário do que todos estão pensando, acredito que a Holanda cavou, com os próprios pés, um doloroso e irremediável abismo: sangrou de humilhação o adversário, numa desmedida trágica, a hybris que causa o ciúme dos deuses do futebol das Copas do Mundo, que seguem, atentos, aos jogos entre equipes campeãs. Se tivesse ganhado com um sábio 1 a 0 ou, no máximo, um sóbrio 2 a 0, se não tivesse dominada pela vingança, numa cegueira crassa, não sossegando enquanto não visse a Espanha arrasada, a seleção holandesa seria, sim, pela categoria de seus jogadores e aplicação tática, candidata ao título. No entanto, a real candidata ao título, agora, é a Espanha, que precisava se revitalizar, deixar cair a máscara que pesava, precária, e dessa forma eletrizar seus brios adormecidos. A Holanda, ao espicaçar a Espanha, deu à Fúria o incentivo decisivo que faltava e, como todo vencedor convencido de sua inquestionável vitória, vai desarmar-se interiormente, perdendo o ódio e a irritação, deixando-se apunhalar pelos próximos adversários.

E mais pálido do que nunca, parando para recuperar o fôlego, após um discurso pungente e lúcido, o Atleticano Melancólico completou, de modo mortiço, mas com a eloqüência retórica de um Vieira ou de um Shakespeare:

– A Espanha foi humilhada e sabemos que a humilhação, a grande e irresgatável humilhação, confere aos homens e aos times uma dimensão nova, uma potencialidade irresistível.

Depois do que, me abraçou com leveza quase inumana, acendeu um cigarro, e ficou olhando, com suas olheiras abismais, os carros passando pela Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, na Cidade Maravilhosa pela manhã, como se fosse o viajante acima do mar de névoas do arquifamoso quadro do romântico germânico Caspar David Friedrich.

Esfinge dentuça

Renato Maurício Prado – O Globo – Esportes – Domingo 17.8.2014

Curiosa a situação de Ronaldinho Gaúcho. Apesar do “renascimento” no Atlético Mineiro, com atuações espetaculares na Libertadores de 2013, ninguém no Galo se incomodou quando ele resolveu sair, no mês passado, ainda com contrato em vigor (já vinha sendo sistematicamente substituído pelo técnico Levir Culpi e nem de longe lembrava o craque decisivo do ano passado).

Sua liberação tampouco provocou alvoroço no mercado: houve informações de uma negociação com o Fluminense (oficialmente negada), falou-se numa possível ida para o futebol americano e, agora, sabe-se, ele foi oferecido a Santos e Palmeiras – na Vila Belmiro, teve o nome vetado por Zinho; no Parque Antártica, discute-se a possibilidade de um contrato de produtividade, com um salário fixo bem menor do que ganhava em Minas.

Que o Dentuço, se quiser, ainda pode jogar um belo futebol, ninguém duvida. O problema é saber se ele ainda quer… Mordido pela maneira como saiu do Flamengo (quando chegou a ser dado como acabado), Ronaldinho deu a resposta no Galo. Mas, este ano, parece ter voltado a se entregar à vida boêmia, e aquele futebol mágico desapareceu.

Multimilionário, ele não precisa ganhar mais nenhum tostão, embora seu irmão e empresário, Assis, continue a tentar fazê-lo faturar. Mas o que ainda pode levar Ronaldinho Gaúcho a se motivar de verdade para voltar a encarar o mundo da bola com um mínimo de profissionalismo?

Decifra-me ou devoro-te. Eis o enigma do Palmeiras ou de qualquer outro interessado nessa autêntica esfinge do futebol que é o Dentuço. Pra mim, seu melhor destino seria memso os EUA. Lá, ninguém lhe cobraria nada, e qualquer embaixadinha ou trivela faria levantar a arquibancada.

Dá-lhe bola!

Renato Maurício Prado – O Globo – Esportes – Terça-feira, 12.8.2014

Foi simplesmente assustadora a qualidade dos jogos do Brasileiro nesse último final de semana. Nem cruzeiro e Fluminense escaparam da mediocridade geral. O número de passes errados de algumas partidas andou em torno de 100! E naquelas que foram disputadas nos estádios da Copa já não existe mais nem sequer a desculpa do gramado irregular. O que há é ruindade mesmo.

Frases pinçadas das entrevistas dos técnicos após a rodada, ajudam a entender o drama. Disse, por exemplo, Vanderlei Luxemburgo depois da magra vitória do Flamengo sobre o Sport, no Maracanã, num jogo tecnicamente horroroso.

– Por enquanto, vamos continuar jogando feio, mesmo. À medida que formos saindo desse sufoco, o futebol bonito aparecerá – prometeu.

Já Luiz Felipe Scolari explicou a falha de um de seus jogadores num dos gols sofridos no Gre-Nal com sinceridade reveladora:

– Ele é jovem e inexperiente, por isso, não fez a falta! – justificou.

Dois dos nossos mais afamados treinadores, portanto, continuam a achar que “ralar a bunda no chão” (expressão recorrente de Luxemburgo, quando exige raça) e parar o jogo com faltas (estratégia típica de Scolari) são a solução para nossos problemas. Não foi à toa que tomamos de 7 a 1…

Canela x bola
A indigência técnica de nossos jogos evidencia que o problema maior vem da base, de onde nossos jovens saem, atualmente, com defeitos assustadores em fundamentos básicos, como o passe e o chute a gol. Enquanto não entendermos que a garotada precisa muito mais de treinos técnicos do que táticos, não se irá a lugar algum. Mas vaid izer isso a algum treinador de escolinha, infantil, júnior, etc. O importante pra eles é se manter no emprego. E, pra isso, precisam ganhar jogos e campeonatos. E tome de garoto taludo e de cintura dura deixando baixinhos talentosos no banco e incentivos de “pega, pega”, para que os guris se atirem nas canelas dos adversários com mais apetite do que vão na bola.

O crédulo
O secretário nacional de futebol, meu amigo Toninho Nascimento, é um ótimo sujeito, mas acredita em Papai Noel. Crê, piamente, que a partir da aprovação da lei que refinanciará as dívidas do clube com a União não somente os clubes serão punidos com perda de pontos e até com rebaixamento, em caso de novos débitos, como os dirigentes passarão a responder, com os bens pessoais, por seus atos inconsequentes.

Acorda, parceiro! Para entrar em vigor, a lei precisa ser aprovada na Câmara e no Senado. Onde, com certeza, sofrerá inúmeras emendas, a maioria para amenizar as punições. Principalmente, aos cartolas, que, pode apostar, continuarão impunes.

Palmeiras x Flu
Lembra do argentino Martinuccio, que andou por Fluminense, Cruzeiro e agora está no Coritiba (emprestado pelo Flu)? Pois o Palmeiras ainda não engoliu a contratação dele pelo clube carioca, depois de ter assinado um pré-contrato com o paulista, em 2011. A briga começou na Fifa (que se disse incompetente para julgar a questão) e segue na Justiça brasileira, onde, se derrotado, o tricolor pode ser obrigado a indenizar o verdão em R$ 6 milhões (total do pré-contrato assinado pelo jogador).

Super Zé
De cabeça inchada com o futebol brasileiro e com o seu time? Assista aos jogos da nossa seleção feminina de vôlei. Bicampeãs olímpicas, as meninas dirigidas por José Roberto Guimarães conseguem o prodígio de jogar cada vez mais! Um colírio para os olhos dos amantes do esporte.

Revisitando Flecheiras

Um lugar especial é aquele que dá um singular significado a uma pessoa e que lhe traz recordações excepcionais. Flecheiras, localizada numa região do litoral oeste cearense, “costa do sol poente”, é um lugar especial para mim. Foi lá que desenvolvi minha pesquisa de mestrado que resultou em sua publicação e deu suporte à minha posterior pesquisa de doutorado.

Tornar a visitar esse “lugar especial” é sempre impactante e supreendente. As impressões antigas emergem e torna-se inevitável a tendência do pensamento em fazer comparações das imagens atuais com as retiradas da memória à época da primeira ou última visita. Visitar várias vezes esse local, em períodos diversos e espaçados, desperta mais ainda essa curiosidade. Minha revisitação à Flecheiras tornou-se  quase uma obrigação. Visito esse lugar sempre que tenho oportunidade, mas nunca com a intenção primeira, aquela da pesquisa feita com as rendeiras, artesãs de rendas de bilros. Minha atração e admiração pelas rendas e rendeiras continua, mas meu interesse não é mais tão objetivo, pois ele passou a ser também afetivo.

Flecheiras, um distrito de Trairi, distante de Fortaleza 120km, à época de minha pesquisa (1999-2000), juntamente com outras praias desse município, era povoada por colônias de pescadores. As rendeiras encontradas e entrevistadas durante a pesquisa eram geralmente casadas com os pescadores locais que ainda praticavam uma pesca artesanal, competindo com uma pesca mais elaborada da lagosta. Esses pescadores ainda se utilizavam da jangada e alguns, com quem tive a oportunidade de falar, diziam que usavam o paquete (uma espécie de jangada de pequeno porte) para a pesca. Nessa ocasião já se notava a presença de turistas e a de “casas para fim-de-semana”, assim como pequenas pousadas.

Eu já conhecia Flecheiras há mais de oito anos quandod ecidi ali realizar minha pesquisa de mestrado. Na época de meu “descobrimento” de Flecheiras, cerca de vinte anos atrás, não tive conhecimento da existência, na vila, de rendeiras, somente dos jangadeiros. Na casa em que fiquei hospedada, pertencente a um primo meu e situada defronte do mar, podia-se ver as jangadas saindo pela manhã e retornando à tarde. Era, sim, um verdadeiro “paraíso tropical”, digno de um belo cartão postal. Posteriormente, na segunda visita, é que encontrei rendeiras em Flecheiras e também em outros lugares do município de Trairi, como em Cannan, onde vi meninas fazendo rendas em almofadas colocadas na frente das casas.

Foi também em Flecheiras que vi pela primeira vez um “curral de peixes” de cuja existência só conhecia através da obra de Câmara Cascudo e de outros folcloristas. Mais tarde, por ocasião de minha segunda viagem de trabalho de campo, vi em Fortaleza, num jornal, a foto vencedora de um cocnurso de fotografia. Nela aparecia a imagem de um belo pôr-do-sol atrás de um curral de peixe que reconheci imediatamente como sendo aquele de Flecheiras. Nessa imagem via-se a beleza expressada nesse tipo rudimentar de armadilha para apanhar peixes.

Flecheiras de hoje ainda se assemelha com as imagens do passado, mas as casas dos jangadeiros encontram-se cada vez mais distantes do mar, em benefício das pousadas e casas do “pessoal de fora”, construídas com vista para o mar verde e morno que propicia agradáveis banhos. O pequeno cemitério ainda continua o mesmo e a Igreja passou por uma reforma. Nota-se, cada vez mais, a incidência de locais para o culto evangélico. Agora, fazem parte da paisagem os enormes cataventos que capturam a energia dos ventos. A vila se modernizou e há um pequeno comércio local direcionado aos visitantes, mas as mulheres ainda se sentam em cadeiras nas calçadas ao cair da tarde embora agora participem das redes sociais. Contudo, não vi nenhuma rendeira dessa vez. Soube através de uma antiga informante, que algumas ainda fazem renda, mas a maior parte delas deixaram as rendas em prol de outros afazeres.

Rever o local de pesquisa após 15 anos desperta um sentimento interessante, um misto de surpresa e curiosidade a respeito das modificações sofridas no decorrer do tempo. Aquele lucarejo, outrora tão isolado, é agora visitado por turistas de todos os locais do mundo. De fato, Flecheiras foi durante a Copa do Mundo objeto de publicidade como a melhor opção para aqueles que buscavam um lugar diferenciado perto de cidades sede na Copa do Mundo FIFA 2014.

‘Podemos ser a NBA do futebol’

Renato Maurício Prado – O Globo – Esportes – Quinta-feira, 7.8.2014Leonardo3

Como jogador, entre muitas conquistas, Leonardo ganhou títulos mundiais, pela seleção brasileira e pelo São Paulo; Brasileiros, por Flamengo e São Paulo; e da Liga dos Campeões pelo Milan. Após pendurar as chuteiras, virou braço direito do presidente do clube italiano, onde também foi treinador, além de ter dirigido, em seguida, o seu maior rival, o Inter de Milão. Até o meio do ano passado, era o principal executivo do Paris Saint-Germain. De passagem pelo Brasil, após assistir à Copa da Europa, Leonardo Analisou a atual situação do futebol brasileiro. E, com razão, defendeu mudanças radicais, conclamando a união de todos os envolvidos no esporte:

– Bom Senso, Romário, clubes, CBF, todos precisam se unir para uma grande reformulação. A gente tem que mudar a visão do todo. O Brasil é a sétima economia mundial, o futebol é a nossa grande paixão, mas, apesar de todo esse potencial, o mundo corporativo, e até o próprio futebol, ainda vê o esporte como organização social, sem fins lucrativos. Isso limita a entrada de qualquer investimento. A visão tem que ser comercial, com fins lucrativos.

O EXEMPLO ALEMÃO
“Na Alemanha, foram criados centros federais, trabalho a longo prazo. Existe uma parte do projeto que é comum a todos. Aqui, todos defendem somente seus interesses. É preciso um movimento comum, no qual as pessoas convirjam para alguma coisa, que beneficie a todos. A CBF (antes, CBD) tem 100 anos. Como pode ser atual, se funciona da mesma maneira há um século? O que falta nessa engrenagem? Um grupo de executivos que conheça gerenciamento e futebol, e acorde e vá dormir pensando no desenvolvimento dele. A Premier League é o maior exemplo de sucesso profissional. Muita coisa pode servir de exemplo. Temos que gerar ideias e ruiquezas. Nossa estrutura é engessada.”

FORA DO MERCADO
“Precisamos criar uma nova estrutura para entrar no mercado. Estamos fora dele. Trabalhando direito, temos condições de fazer uma NBA. Quanto custa o Neymar ficar aqui? Para o tamanho do negócio que se pode gerar, não é nada. Se, ao menos, fizéssemos um campeonato local forte, não precisaríamos nem competir com a Europa. A NBA não compete com ninguém e é um sucesso no mundo todo. O Campeonato Brasileiro não passa em lugar algum do mundo. Não é reconhecido no mercado. Os jogos são desinteressantes. E ainda se chama Brasileirão. Esse nome, nenhum estranjeiro entende. Não vende lá fora…”

A IMPORTÂNCIA DA BASE
“Se a gente não tem uma base boa, ferrou. Isso influencia todo o processo de formação. O menino que entra pro Flamengo (e na maioria dos clubes), hoje, logo está dizendo ‘me tira daqui’. Quer é jogar na Europa. A base tenta revelar jogadores para vender. Quais são as receitas de um clube? TV, marketing, estádio e jogador. Na Europa, venda de jogador só contribui com 10% da receita. Aqui é muito mais. E a preocupação passa a ser vender logo a garotada, sem estar de fato formada. E muito talento se perde.

NEYMAR
“Neymar falou que no Brasil se treina pouco. E ele só descobriu isso aos 22 anos! Será que não poderia ser melhor se tivesse descoberto isso aos 18? Se tivesse tido outras opiniões táticas, poderia ser um autêntico 10. Taticamente estamos muito atrasados. No Brasil, a gente aprende a jogar bola, não a jogar o jogo. A Alemanha hoje tem talento, mas tem também estratégia. A Italia ganhou em 2006 só na estratégia. Materazzi foi o artilheiro do time! Isso também é jogo! Só que a gente acha feio. Está todo mundo mais organizado taticamente. E, para você fazer prevalecer nosso talento, tem que estar organizado. A gente precisa ter a visão do todo e depois pôr o talento. Neymar tem que ser o algo mais, não a base do time.”

MOTIVAÇÃO
“Aquele negócio de ‘vamos lá, vamos lá’, não funciona com o europeu. Ele quer conteúdo, saber a função e o que fazer em campo. Os europeus veem o Brasil como o país que resolve no talento. Nunca uma conquista nossa foi atribuída, lá fora, ao treinador. O técnico brasileiro é mais forte em pôr os bons jogadores para fazer o que eles querem e não para armar o time taticamente. E o jogador brasileiro não gosta de discutir tática. Dentre os técnicos que tive, quem mostrava mais claramente o que queria era o Telê. Não era tático, mas aperfeiçoava a técnica ao máximo! e com a qualidade técnica superava até a tática.”

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“Não quero criticar apenas um jogo. Mas todos sabiam que a Alemanha ia pressionar nossa saída de bola desde o início. Se fosse treinador italiano, ia dizer pro David Luiz mandar a bola lá pra frente e todo mundo ia sair. Não ahco impressindível um técnico estrangeiro, mas não sou contra.”

CLUBES/ INVESTIMENTOS
“Os clubes têm que tomar a iniciativa! Sem eles não tem campeonato, seleção, não tem nada. E eles não podem estar tão enfraquecidos. E não adianta só sanear a dívida. Se não mudar o sistema e gerar riqueza, não resolve. Vai dever de novo. Precisamos abrir as portas dos clubes para as riquezas existentes no Brasil ou memso para as estrangeiras. A gente precisa criar uma estrutura para alguém pôr dinheiro.”

Reformulação do futebol fica para depois

Maurício Fonseca – O Globo – Esportes – 36 – Quita-feira, 7.8.2014

Há três semanas, ao anunciar o ex-goleiro Gilmar Rinaldi como novo coordenador de seleções, a CBF apresentou também o que seria um plano de reformulação para recuperar o futebol brasileiro. Pois bem, o trabalho ainda nem começou de fato e já se sabe que as coisas não serão exatamente como foram divulgadas. Em reunião, ontem na sede da entidade, ficou decidido que as seleções principal e olímpica serão convocadas em todas as datas Fifa, e cada qual fará seu amistoso.

Inicialmente, de acordo com o plano apresentado pelo técnico Gallo, coordenador das divisões de base da CBF, a seleção principal teria de 30% a 40% dos jogadores com idade olímpica, ou seja, que terão, no máximo, 23 anos em 2016.

del neroNa ocasião, o vice-presidente da CBF, Marco Polo del Nero, que assumirá a presidência em abril de 2015, explicou como deveria ser a primeira lista de convocados, a ser divulgada no dia 19, para amistoso contra Colômbia (5/9) e Equador (9/9).

– Não é 100% da seleção principal que terá jogadores com idade olímpica. Pode ser 30%, 40%. O treinador é quem vai determinar isso – afirmou, na ocasião, Del Nero.

Pelo visto, as palavras do futuro presidente ainda não têm tanta força dentro da entidade. Ontem, Gilmar explicou, no site da CBF, que as duas seleções serão convocadas simultaneamente. Elas não serão misturadas, como sonhava Gallo.

– Está definido que a seleção olímpica disputará o mesmo número de amistosos marcados para a equipe principal e no mesmo período – disse o coordenador de seleções.

25 DIAS DE PRÉ-TEMPORADA
A CBF também divulgou ontem o calendário do futebol brasileiro para 2015. A novidade fica por conta do aumento da pré-temporada, que terá 25 dias, de 7 a 31 de janeiro. Mesmo assim, a entidade não cumpriu o que queriam os jogadores, que, através do movimento Bom Senso FC, pediam 30 dias para o período de preparação. Com isso, os campeonatos estaduais serão disputados em fevereiro e quase todos terão 19 datas, como não queriam os grandes clubes.

A Libertadores e a Copa do Brasil foram divididas em duas partes, devido à Copa América (11 de junho e 4 de julho). O Brasileiro não sofrerá paralisação no período, e os atletas convocados por Dunga que atuarem em times brasileiros desfalcarão suas equipes no início da competição nacional.

Drops

>> Com os acontecimentos no Oriente Médio, a Alemanha vai se convencer de que ganhou a Copa do Mundo graças à sua superioridade e não à metodologia que vem aplicando desde as bases, conseguindo resultados excelentes. O que nos leva a ter um certo medo com a eficácia deste país no campo dos esportes.

>> Consultor da ONU para a Copa, professor da FGV, diz que governo, clubes e torcida precisam rediscutir atual modelo do esporte no país. “É preciso um choque de democracia no futebol brasileiro” – Pedro Trengrouse. “O futebol tem problemas crônicos que dizem respeito ao poder público: quase 90% dos clubes brasileiros jogam em média quatro meses e meio por ano. Clube que não joga não gera talentos.”

Somos todos diferentes

Tostão – Folha de S. Paulo – esporte – D2 – Domingo, 20 de julho de 2014

Gilmar Rinaldi, ex-goleiro, ex superintendente do Flamengo e que foi, durante longo tempo, agente de atletas, é o coordenador de todas as seleções brasileiras. Ele disse que largou sua atividade de agente para ocupar o cargo. Mesmo assim, essa proximidade, que não se apaga por decreto, é conflitante com o atual trabalho. Deveria, no mínimo, passar por uma quarentena. Por que foi escolhido, já que não é nenhum profundo conhecedor do assunto?

Alexandre Gallo, coordenador das seleções de base, deu detalhadas informações, com milhares de estatísticas sobre os resultados em campo e sobre o que tem sido feito. Falou que as seleções de base jogam um futebol moderno, compacto, com muita troca de passes e poucos chutões. Não foi o que vi. Além do mais, a formação de atletas no Brasil é feita, principalmente, pelos clubes.

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O Brasil ganha muitos títulos nas categorias de base porque possui um enorme número de bons jogadores, que passam a atuar nos times principais muito cedo, sem deixarem de jogar pelas seleções de base. Eles ficam fisicamente prontos antes dos jovens de outros países. É raro ver um jogador de uma seleção de base da Europa lá titular de um grande time. Além disso, o Brasil também perde, e muito. Não participou do último Mundial sub-20 porque não se classificou entre os quatro primeiros no Sul-Americano.

A questão principal é saber a razão de um país tão grande, com tanta tradição, com tantos bons jogadores nas categorias de base, só ter um único craque do meio para a frente: Neymar.

Gallo disse que vai priorizar o conjunto. Isso é importante. Desaprendemos a jogar coletivamente. Mas é preciso também enxergar os detalhes, a subjetividade, as exceções, e não apenas a regra. O Brasil tem formado jogadores muito iguais, em série, como se fosse uma fábrica de parafusos. Privilegiar o coletivo não é deixar de formar os diferentes. É fazer com que os diferentes participem do coletivo. A Alemanha não se destacou somente pelo conjunto. Foi a seleção com o maior número de excepcionais jogadores.

A solução não é também baixar umd ecreto de que todos os clubes, desde as categorias de base, adotem o mesmo estilo. É importantíssimo criar variações. Não existe apenas uma maneira de atuar bem e vencer.

A Argentina usou, contra a Alemanha, a mesma estratégia do Real Madrid, na Liga dos Campeões, contra o Bayern, base da seleção alemã, com duas linhas de quatro, próximas e recuadas. A grande diferença é que, no contra-ataque, o Real tinha quatro jogadores excepcionais (Di Maria, Cristiano Ronaldo, Benzema e Bale). A Argentina dependia demais de Messi, com a contusãod e Di Maria.

O Brasil precisa mudar vários conceitos sobre como jogar futebol e como se organizar e trabalhar bem. Não serão com parceiros da CBF nem somente com Zé Regrinhas.

Agora é cair na real

Ferreira Gullar – Folha de S. Paulo – ilustrada – E10 – Domingo, 20 de julho de 2014

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Maldita a hora em que alguém inventou de trazer essa Copa de 2014 para o Brasil, dirão agora os fanáticos por nosso futebol. Quem teve essa ideia, não se sabe ao certo.

Mas quem tudo fez para trazê-la para cá foi o ex-presidente Lula, que chegou a ir à reunião da Fifa para conseguir trazê-la. E isso foi saudado como vitória por todo mundo, inclusive por mim. Uma Copa dos campeões do mundo no Brasil, quem não queria?

Todos os brasileiros queriam e, por isso mesmo, Lula fez tudo o que pôde para que esse sonho se realizasse, mesmo porque só faria crescer seu prestígio e popularidade.

Mega, como ele é, logo imaginou que seria um acontecimento extraordinário de projeção internacional e, ainda por cima, o resgate do nosso insuperado trauma da Copa de 1950. Tal feito o elevaria definitivamente à condição de herói nacional.

Isso era possivelmente o que ele pensava, mas nós, que não somos políticos, também víamos a realidade dessa Copa aqui como a afirmação de nosso prestígio no universo futebolístico. Só não pensávamos que, para que tudo saísse às mil maravilhas, era necessário termos uma seleção capaz de peitar e vencer as dos outros países. E não tínhamos.

Creio que o ponto principal para entendermos o desastre que foi a nossa atuação nesta Copa está em nos darmos conta de que não apenas Lula é mega: nós, o Brasil também o é. E como quem é mega não se dá conta de que o é, nós, brasileiros, ao sabermos que a Copa de 2014 seria aqui, começamos imediatamente a sonhar com o título de hexacampeão e com o banho que daríamos em nossos adversários.

“A Copa já está em nossas mãos”, disse Felipão, disse Parreira, disse a torcida inteira. Eu não disse, como alguns outros poucos. O que escrevi aqui sobre o assunto, nas últimas semanas, deixou claro que eu temia o desastre.

Porque somos mega, a derrota de 1950 tornou-se um trauma insuperável. É que o mega não pode perder e, se perder, não se conforma, como não nos conformamos com a derrota para o Uruguai.

Pois bem, lógico seria, após as vitórias posteriores, que nos tornaram pentacampeões, aceitarmos aquela derrota como natural, mesmo porque a seleção uruguaia, que nos venceu, era uma boa seleção e, portanto, poderia ganhar de nós, como ganhou.

Mas quem é mega não pensa assim. Aceitar a derrota é admitir que não jogamos o melhor futebol do mundo e, portanto, para sermos derrotados, deve ter havido algo inexplicável, fora da lógica natural das coisas: um apagão, certamente.

Não é assim que Felipão explica os 7 a 1 que sofremos na semifinal com a Alemanha? Sim, porque, se perdemos por termos jogado mal, não somos os melhores do mundo.

Daí por que a derrota não tem explicação. Claro, o melhor do mundo, aquele se tornou o país do futebol, que tem o rei do futebol e cinco títulos mundiais, não pode perder de ninguém, muito menos perder de lavada. Se isso nos acontecer, entramos em crise, ou seja, estamos em crise.

E então você entenderá por que muita gente agora maldiz a ideia de trazer para o Brasil a Copa dos campeões este ano. No primeiro momento, todos nós só pensamos na alegria de termos em nosso país a disputa entre as melhores seleções do mundo e, claro, a oportunidade de superarmos o trauma surgido com a derrota de 1950.

Só nos esquecemos de considerar que, tendo perdido a última Copa realizada aqui, estaríamos obrigados a vencer esta, do contrário passaríamos por um vexame ainda maior. Ou seja, em vez de nos livrarmos do trauma de 50, acrescentaríamos a ele um novo trauma, o de 2014.

Para os brasileiros mais modestos, o modo como a nossa seleção chegou à semifinal, já os deixou de pé atrás, e a derrota fragorosa diante da Alemanha apagou qualquer dúvida: já não somos os melhores do mundo.

Essa foi uma derrota tão inesperada e avassaladora que nem a nossa megalomania resistiu a ela. O novo temor era o jogo com a Holanda e o pior se confirmou: a nova derrota, de 3 a 0.

É hora de encarar a realidade. Não só no furebol como no resto. Para melhorar o nosso futebol e o nosso país, encarar a realidade é melhor que nos iludirmos.