Nos anos 50-60 havia no Rio de Janeiro uma personagem muito interessante, o barão de Itararé, conhecido por sua criatividade e por seu humor. Na verdade era esse o pseudônimo do jornalista e homem público Apparício Torelly que costumava nos brindar com as suas tiradas inteligentes e bem humoradas no seu jornal A manhã. O jornal era feito por ele que se responsabilizava pela preparação, edição e tudo o mais que envolvia trazer à luz um texto impresso. Havia ali uma seção dedicada ao humor, ou melhor, o jornal todo era uma sucessão de fatos hilários sempre acompanhados de uma observação mordaz do fato cotidiano. Uma dessas observações, que jamais esqueci, referia-se ao comentário político de que “havia algo mais no ar além dos aviões de carreira”. Esse comentário bem se aplica à demissão de Mano Menezes da direção técnica da Seleção Brasileira. De fato, dava para sentir, esse é o termo, que algo não ia bem com o comando da Seleção ainda que os jogadores, a torcida demonstravam uma certa satisfação com o andamento das coisas com o time de camisas amarelas que começava a formar uma base para se saber se ia dar certo ou não. A dispensa de Mano Menezes, como disse Tostão (Folha de São Paulo D6 Esportes. Domingo, 25 de novembro de 2012) “é inoportuna. Em dois anos e quatro meses no cargo, ele acertou mais que errou”. Uma afirmativa como essa conta pouco no atual perfil ideológico da CBF, que tem uma herança autoritária na conduta dos técnicos. Como disse Tostão, eles sofrem de um problema crônico igualmente incurável, que é o de ter um rei, ou melhor, um deus na barriga. Para que esse quadro de condutas mudasse seria preciso que eles escutassem outros auxiliares e, não, somente, os seus auxiliares. Para os técnicos, auxiliar bom é o que “quase não fala, nunca discorda do chefe nem sonha em ser treinador”. É o que se conhece como aquele que está sempre balançando a cabeça afirmativamente diante das proposições do chefe. Há entre nós uma dificuldade em aceitar a discordância como algo inerente ao diálogo, à troca de ideias, opiniões. O futebol sofre desse pecado que é, na verdade, uma herança advinda dos tempos da sociedade patriarcal bem descrita por Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala). Numa sociedade moderna, o direito a palavra lhe é peculiar. Por meio dela e com ela vêm juntas as conquistas, o exercício do direito de se expressar. Autran Dourado, um escritor que soube mostrar essas limitações ainda existentes entre nós no seu livro “O Risco do Bordado”, enfatiza questões como essas acima indicadas de maneira lapidar. O Imaginário narrado na obra mostra como o binômio dominação/submissão impregna visceralmente as relações sociais na sociedade brasileira. Ainda assim, o futebol como jogo é libertador de todos que dele participam y compris os espectadores.

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