Amigos, somos tetracampeões brasileiros! Um título muito mais do que merecido! Diria, sem proselitismo, um título que já nos esperava desde que (re) nasceu, em 2009, o espírito do Time de Guerreiros no Fluminense! Denominação que veio à tona depois de conseguirmos nos salvar de um rebaixamento eminente, que os matemáticos diziam que teria 98% de chances de acontecer. Façanha triunfal, que levou o Tricolor mais famoso do planeta a reencontrar a potência originária de sua alma. E a um time de futebol pode faltar tudo, menos alma! A partir de agora, é necessário que seja reescrita a história tricolor na contemporaneidade: o Fluminense a.G (antes do Time de Guerreiros) e d.G (depois do Time de Guerreiros). Exagero? Sim, mas o que seria de nós, pobres mortais, se não exagerássemos, movidos pela admiração e pelo espanto, diante da beleza de forças cósmicas como, por exemplo, a da campanha do Fluminense de 2012? 

Os parvos e sonsos haverão de rosnar: “E o título da Copa do Brasil de 2007, e o vice da Libertadores de 2008?”. Aqueles momentos foram ensaios ritualísticos, danças e libações iniciais para o retorno do Espírito de Guerreiros, que andava combalido, desde finais dos anos 90, após nossos sucessivos rebaixamentos. Agora estamos vivenciando o reencontro saudável e glorioso do corpo e da alma, da tradição e da modernidade, da história e da mística do Fluminense Football Club, o único e autêntico Time de Guerreiros! Por isso, prevejo, sem medo do ridículo e do absurdo, já que ridículo e absurdo são dimensões legítimas do futebol: o século XXI será o século de consagração definitiva, nacional e internacional, do imenso Tricolor! Pois, é mais do que sabido, que o maior campeão carioca do Século XX foi o Flu, numa época em que ganhar campeonatos cariocas ou paulistas para os clubes brasileiros era tão, ou mais, importante do que vencer títulos de qualquer outra natureza. 

Mas vamos falar da campanha do Fluminense neste brasileirão de 2012! Que campanha, amigos, que campanha: melhor ataque, melhor defesa, maior número de vitórias, menor número de derrotas, artilheiro da competição, e, acima de tudo, o título de time mais sóbrio, mais elegante, mais equilibrado! Senão, vejamos. A maioria de nossos escores foram por um gol de diferença, as assim chamadas vitórias magras. Houve raras e escassas aberrações como um adiposo 4 a 0 aqui, outro ali. Isso significa dizer que jamais humilhamos nossos adversários, sempre mantivemos os pés no chão, franciscanos, com as sandálias da humildade devidamente calçadas. Um time sem imensas euforias e sem graves depressões, sem estardalhaço e sem indiferença, mantendo um controle e um cuidado, com o outro e consigo mesmo, invejáveis, diríamos, ecumênicos. A máscara jamais foi usada, ficou em algum canto abandonado, enterrada como um sapo de boca costurada, fora, distante anos-luz do reino pós-aristocrático das Laranjeiras. 

Por isso, muitos, por não entenderem as propostas éticas e estéticas da esquadra tricolor, cometeram barbarismos impagáveis. Falaram em volta da mística do “Timinho”; em ajuda dos juízes; em injustiça de placares; em futebol feio e sem graça, o que são, no mínimo, comentários destituídos de sensibilidade e sutileza. Amigos, a beleza da conquista do campeonato pelo time de Álvaro Chaves foi fina e lapidar, respeitosa, modernamente clássica, mais de Racine do que Shakespeare, mais de Cabral do que Drummond, mais de Chico do que Caetano. Se a estética dos títulos é sempre monumental, um mural de Diego Rivera ou Di Cavalcanti, o que o Flu (re) introduziu no futebol brasileiro, neste ano da graça de 2012, foi o equivalente do detalhe bossa-nova na melodia do samba: economia e precisão sem perder o suingue e a malandragem, pois um time que tem craques da envergadura de Deco, Fred, Wellington Nem, Cavalieri, Thiago Neves, Gum, Jean, não pode jamais jogar um futebol feio ou sem graça. 

E mais, o Fluminense foi um time muito seguro de si. Não se desesperava, sabia de suas forças e da hora certa de usar cada uma delas. Conduzia as partidas como se fosse o maestro dos jogos e não um dos naipes da orquestra em contraponto com o adversário timbrístico. Ganhou, com isso, uma visão mais simultânea, divina, de cima, das partidas, e menos sucessiva, ao sabor dos lances e do acaso. O Fluminense campeão brasileiro de 2012 foi um time de deuses, não só um time de heróis guerreiros. Daí a confusão que alguns fizeram, chamando nossa equipe de fria e cerebral. Nada disso, estamos falando de uma esquadra inteligente, certeira, que buscou os resultados na hora em que precisou, medindo esforços, com jogadores experientes e lúcidos no comando das ações dos principais setores da equipe. E, somente por três vezes, durante toda uma competição de 38 jogos, não conquistou seus objetivos. 

Bem, mas vamos à festa do título! Sim, amigos, a torcida tricolor se portou com exemplar abnegação, em nenhum momento cantou vitória antes do tempo, embora um pássaro de hinos infinitos insistisse em voar, delirante, de sua garganta. E no domingo fatal, em que seria sacralizado o que se anunciava há dez mil anos, a nossa legião, enfim, se permitiu arrancar a sandália da humildade e colorir a cidade com sua magia, plasticidade e vibração habituais. Já pela manhã, em cada canto, em cada bar e esquina se via um tricolor, camisa vestida, altivo e luzente, lendo seu jornal, tomando seu carioquinha, ajeitando suas bandeiras nas janelas. O título estava no ar, os poros transpiravam, os olhos anteviam, mas a doce e tenaz torcida tricolor não perdia o foco da partida decisiva. 

O jogo estava cercado de expectativas opostas: o grande Palmeiras, detentor de 10 títulos nacionais, estando à beira da ida para a segunda divisão – após um ano em que venceu a Copa do Brasil, se garantindo, assim, na Libertadores do ano que vem –, certamente faria de tudo para não passar mais um vexame, como o ocorrido na queda de 2002. O Fluminense, para ser campeão com 3 rodadas de antecedência, teria que vencer o alviverde e torcer para uma derrota ou empate do Atlético Mineiro diante do Vasco. E os deuses do futebol foram generosos. A combinação de resultados aconteceu e, em Presidente Pudente, longe de sua massa carioca, o Flu venceu o Palmeiras por 3 a 2, e Vasco e Atlético empataram em 1 a 1. 

Festa pelas ruas! Festa nos lares! Festa pelos restaurantes, praias e bares da cidade. Festa verde, branca e grená pelo Brasil e mundo afora! Os mortos também vieram, felizes, translúcidos, comemorar com os vivos! Encontrei a Viúva Botafoguense, com o seu marido falecido, o Tricolor de Lábios Roxos, abrindo sua quinta Chandon, no Lamas, entre beijos e baforadas na cigarrilha prolongada pela piteira. Esbarrei com a Loura Indignada na Praça São Salvador, às turras com o infiel Latin Lover, pego no flagra comemorando com a Amante Flamenguista em meio a uma caminhada da vitória. Cruzei com a Bailarina Vascaína, dançando, aos beijos, com o seu novo namorado tricolor no campo do Estádio das Laranjeiras. Acenei para o Negão de Ventas Raciais, agarrando um filho em cada braço, na Tribuna de Honra do Flu, tecendo, em êxtase tribal, loas ao nosso épico tetracampeonato. Nesse momento, meu celular tocou, fui para um canto menos barulhento do mítico gramado para ouvir melhor e a surpresa foi estarrecedora: o Velho do Restelo, cético e amargurado, sempre negando e condenando as grandes aventuras transatlânticas, se encontrava, numa churrascaria, com o Profeta Tricolor. Juntos, liam bolas de cristais, jogavam cartas de Tarô, a fim de vaticinarem as futuras conquistas do Time mais Amado do Brasil. Estavam me ligando para contar, num português quase ininteligível, o resultado de suas previsões, que geraram pérolas místicas e concretas como esta: “O Fluminense, em 2013, vencerá o carioca, ganhará a Libertadores e será campeão mundial”. 

O único ponto triste, doloroso mesmo, se deu quando fui pegar um táxi para voltar para casa – o dia já clareando, faixa de campeão no peito – e me deparei com o Atleticano Melancólico sentado no meio fio, mão no queixo à Pensador de Rodin, numa abulia inconsolável. Tinha os olhos fixos num ponto infinito qualquer, o rosto pálido, olheiras profundas, soltando, minuto a minuto, suspiros longuíssimos. O querido torcedor do Galo das Alterosas havia retornado, mais uma vez, para o estado de coita amorosa, a dor do amor não correspondido que, volta e meia, o enfeitiçava cruelmente. Quando me viu, saiu por segundos de seu estado lastimável e abriu um sorriso amarelo, honesto, dorido: “Sr. Nelson! Há quanto tempo! Que saudades! O que o Sr. está fazendo aqui a essa hora da madrugada? Estreou peça nova? Recebeu as vaias de que o Sr. tanto se vangloria em conquistá-las?” Ainda compadecido, respondi, cuidadoso para não fazê-lo sofrer ainda mais, só que agora não por uma mulher, mas pela paixão clubística: “Não, meu amigo, estou voltando das Laranjeiras, da festa do título. O Fluminense é o campeão brasileiro de 2012!” 

Após ouvir as minhas palavras o Atleticano Melancólico estancou. Olhou para o nada, entrando num estado de absoluto torpor, a boca entreaberta, os braços jogados ao lado do tórax, e voltou a sentar. Nesse instante, aparece, sorridente, com um embrulho em uma das mãos e celular na outra, o Filósofo Botocudo. Usava a indefectível calça jeans, descalço, o corpo pintado de jenipapo e urucum, portando um cocar e outros adornos de penas e contas. Ostentava a mesma faixa de campeão que eu, orgulhoso, peito ao vento. Fez uma festa quando me viu, dançando e cantando músicas de cura e da mais pura alegria, pois era um grande xamã de sua tribo do tronco lingüístico Macro-Jê. Quando cessou, se dirigiu a mim, com olhar sereno e voz enfática e pausada: “Sr. Nelson, só a filosofia salva o homem da melancolia profunda! Só a felicidade que o Fluminense propicia pode salvar a alma de nosso amigo atleticano! Fui numa loja 24 horas comprar um Black Label para tentar salvá-lo! Vamos comemorar o título e arrancar o espinho que fere tão duramente a alma do nosso irmão! Vamos para a beira do mar molhar os pés e matar essa garrafa de cauim dourado!” 

O Atleticano Melancólico, então, se levantou outra vez, como que galvanizado para uma festa, um zumbi redivivo pelas palavras sábias do Filósofo Botocudo, pôs um braço no meu ombro, o outro no do xamã, proferindo, categórico, as seguintes palavras: “O dia está nascendo, o Fluminense é campeão, que se dane aquele amor desgraçado: vamos para a praia!” E fomos andando rumo ao mar, de Laranjeiras ao Leme, entre grandes goladas de uísque, cantos ameríndios, piadas inesperadas e pitadas de fumo, enquanto a beleza da aurora invadia e dominava os últimos restos de noite espalhados pela cidade.

Crônica escrita por André Gardel, autor do blog Crônicas à Moda Rodriguiana.

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