Renato Maurício Prado – O Globo – Esportes – Quinta-feira, 7.8.2014Leonardo3

Como jogador, entre muitas conquistas, Leonardo ganhou títulos mundiais, pela seleção brasileira e pelo São Paulo; Brasileiros, por Flamengo e São Paulo; e da Liga dos Campeões pelo Milan. Após pendurar as chuteiras, virou braço direito do presidente do clube italiano, onde também foi treinador, além de ter dirigido, em seguida, o seu maior rival, o Inter de Milão. Até o meio do ano passado, era o principal executivo do Paris Saint-Germain. De passagem pelo Brasil, após assistir à Copa da Europa, Leonardo Analisou a atual situação do futebol brasileiro. E, com razão, defendeu mudanças radicais, conclamando a união de todos os envolvidos no esporte:

– Bom Senso, Romário, clubes, CBF, todos precisam se unir para uma grande reformulação. A gente tem que mudar a visão do todo. O Brasil é a sétima economia mundial, o futebol é a nossa grande paixão, mas, apesar de todo esse potencial, o mundo corporativo, e até o próprio futebol, ainda vê o esporte como organização social, sem fins lucrativos. Isso limita a entrada de qualquer investimento. A visão tem que ser comercial, com fins lucrativos.

O EXEMPLO ALEMÃO
“Na Alemanha, foram criados centros federais, trabalho a longo prazo. Existe uma parte do projeto que é comum a todos. Aqui, todos defendem somente seus interesses. É preciso um movimento comum, no qual as pessoas convirjam para alguma coisa, que beneficie a todos. A CBF (antes, CBD) tem 100 anos. Como pode ser atual, se funciona da mesma maneira há um século? O que falta nessa engrenagem? Um grupo de executivos que conheça gerenciamento e futebol, e acorde e vá dormir pensando no desenvolvimento dele. A Premier League é o maior exemplo de sucesso profissional. Muita coisa pode servir de exemplo. Temos que gerar ideias e ruiquezas. Nossa estrutura é engessada.”

FORA DO MERCADO
“Precisamos criar uma nova estrutura para entrar no mercado. Estamos fora dele. Trabalhando direito, temos condições de fazer uma NBA. Quanto custa o Neymar ficar aqui? Para o tamanho do negócio que se pode gerar, não é nada. Se, ao menos, fizéssemos um campeonato local forte, não precisaríamos nem competir com a Europa. A NBA não compete com ninguém e é um sucesso no mundo todo. O Campeonato Brasileiro não passa em lugar algum do mundo. Não é reconhecido no mercado. Os jogos são desinteressantes. E ainda se chama Brasileirão. Esse nome, nenhum estranjeiro entende. Não vende lá fora…”

A IMPORTÂNCIA DA BASE
“Se a gente não tem uma base boa, ferrou. Isso influencia todo o processo de formação. O menino que entra pro Flamengo (e na maioria dos clubes), hoje, logo está dizendo ‘me tira daqui’. Quer é jogar na Europa. A base tenta revelar jogadores para vender. Quais são as receitas de um clube? TV, marketing, estádio e jogador. Na Europa, venda de jogador só contribui com 10% da receita. Aqui é muito mais. E a preocupação passa a ser vender logo a garotada, sem estar de fato formada. E muito talento se perde.

NEYMAR
“Neymar falou que no Brasil se treina pouco. E ele só descobriu isso aos 22 anos! Será que não poderia ser melhor se tivesse descoberto isso aos 18? Se tivesse tido outras opiniões táticas, poderia ser um autêntico 10. Taticamente estamos muito atrasados. No Brasil, a gente aprende a jogar bola, não a jogar o jogo. A Alemanha hoje tem talento, mas tem também estratégia. A Italia ganhou em 2006 só na estratégia. Materazzi foi o artilheiro do time! Isso também é jogo! Só que a gente acha feio. Está todo mundo mais organizado taticamente. E, para você fazer prevalecer nosso talento, tem que estar organizado. A gente precisa ter a visão do todo e depois pôr o talento. Neymar tem que ser o algo mais, não a base do time.”

MOTIVAÇÃO
“Aquele negócio de ‘vamos lá, vamos lá’, não funciona com o europeu. Ele quer conteúdo, saber a função e o que fazer em campo. Os europeus veem o Brasil como o país que resolve no talento. Nunca uma conquista nossa foi atribuída, lá fora, ao treinador. O técnico brasileiro é mais forte em pôr os bons jogadores para fazer o que eles querem e não para armar o time taticamente. E o jogador brasileiro não gosta de discutir tática. Dentre os técnicos que tive, quem mostrava mais claramente o que queria era o Telê. Não era tático, mas aperfeiçoava a técnica ao máximo! e com a qualidade técnica superava até a tática.”

7X1
“Não quero criticar apenas um jogo. Mas todos sabiam que a Alemanha ia pressionar nossa saída de bola desde o início. Se fosse treinador italiano, ia dizer pro David Luiz mandar a bola lá pra frente e todo mundo ia sair. Não ahco impressindível um técnico estrangeiro, mas não sou contra.”

CLUBES/ INVESTIMENTOS
“Os clubes têm que tomar a iniciativa! Sem eles não tem campeonato, seleção, não tem nada. E eles não podem estar tão enfraquecidos. E não adianta só sanear a dívida. Se não mudar o sistema e gerar riqueza, não resolve. Vai dever de novo. Precisamos abrir as portas dos clubes para as riquezas existentes no Brasil ou memso para as estrangeiras. A gente precisa criar uma estrutura para alguém pôr dinheiro.”

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