Um lugar especial é aquele que dá um singular significado a uma pessoa e que lhe traz recordações excepcionais. Flecheiras, localizada numa região do litoral oeste cearense, “costa do sol poente”, é um lugar especial para mim. Foi lá que desenvolvi minha pesquisa de mestrado que resultou em sua publicação e deu suporte à minha posterior pesquisa de doutorado.

Tornar a visitar esse “lugar especial” é sempre impactante e supreendente. As impressões antigas emergem e torna-se inevitável a tendência do pensamento em fazer comparações das imagens atuais com as retiradas da memória à época da primeira ou última visita. Visitar várias vezes esse local, em períodos diversos e espaçados, desperta mais ainda essa curiosidade. Minha revisitação à Flecheiras tornou-se  quase uma obrigação. Visito esse lugar sempre que tenho oportunidade, mas nunca com a intenção primeira, aquela da pesquisa feita com as rendeiras, artesãs de rendas de bilros. Minha atração e admiração pelas rendas e rendeiras continua, mas meu interesse não é mais tão objetivo, pois ele passou a ser também afetivo.

Flecheiras, um distrito de Trairi, distante de Fortaleza 120km, à época de minha pesquisa (1999-2000), juntamente com outras praias desse município, era povoada por colônias de pescadores. As rendeiras encontradas e entrevistadas durante a pesquisa eram geralmente casadas com os pescadores locais que ainda praticavam uma pesca artesanal, competindo com uma pesca mais elaborada da lagosta. Esses pescadores ainda se utilizavam da jangada e alguns, com quem tive a oportunidade de falar, diziam que usavam o paquete (uma espécie de jangada de pequeno porte) para a pesca. Nessa ocasião já se notava a presença de turistas e a de “casas para fim-de-semana”, assim como pequenas pousadas.

Eu já conhecia Flecheiras há mais de oito anos quandod ecidi ali realizar minha pesquisa de mestrado. Na época de meu “descobrimento” de Flecheiras, cerca de vinte anos atrás, não tive conhecimento da existência, na vila, de rendeiras, somente dos jangadeiros. Na casa em que fiquei hospedada, pertencente a um primo meu e situada defronte do mar, podia-se ver as jangadas saindo pela manhã e retornando à tarde. Era, sim, um verdadeiro “paraíso tropical”, digno de um belo cartão postal. Posteriormente, na segunda visita, é que encontrei rendeiras em Flecheiras e também em outros lugares do município de Trairi, como em Cannan, onde vi meninas fazendo rendas em almofadas colocadas na frente das casas.

Foi também em Flecheiras que vi pela primeira vez um “curral de peixes” de cuja existência só conhecia através da obra de Câmara Cascudo e de outros folcloristas. Mais tarde, por ocasião de minha segunda viagem de trabalho de campo, vi em Fortaleza, num jornal, a foto vencedora de um cocnurso de fotografia. Nela aparecia a imagem de um belo pôr-do-sol atrás de um curral de peixe que reconheci imediatamente como sendo aquele de Flecheiras. Nessa imagem via-se a beleza expressada nesse tipo rudimentar de armadilha para apanhar peixes.

Flecheiras de hoje ainda se assemelha com as imagens do passado, mas as casas dos jangadeiros encontram-se cada vez mais distantes do mar, em benefício das pousadas e casas do “pessoal de fora”, construídas com vista para o mar verde e morno que propicia agradáveis banhos. O pequeno cemitério ainda continua o mesmo e a Igreja passou por uma reforma. Nota-se, cada vez mais, a incidência de locais para o culto evangélico. Agora, fazem parte da paisagem os enormes cataventos que capturam a energia dos ventos. A vila se modernizou e há um pequeno comércio local direcionado aos visitantes, mas as mulheres ainda se sentam em cadeiras nas calçadas ao cair da tarde embora agora participem das redes sociais. Contudo, não vi nenhuma rendeira dessa vez. Soube através de uma antiga informante, que algumas ainda fazem renda, mas a maior parte delas deixaram as rendas em prol de outros afazeres.

Rever o local de pesquisa após 15 anos desperta um sentimento interessante, um misto de surpresa e curiosidade a respeito das modificações sofridas no decorrer do tempo. Aquele lucarejo, outrora tão isolado, é agora visitado por turistas de todos os locais do mundo. De fato, Flecheiras foi durante a Copa do Mundo objeto de publicidade como a melhor opção para aqueles que buscavam um lugar diferenciado perto de cidades sede na Copa do Mundo FIFA 2014.

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