Crônica escrita por André Gardel em seu blog “Crônicas à moda Rodriguiana” e gentilmente cedidas para o Na Zaga e Nas Artes.

Amigos, depois de passar o dia escrevendo na redação do jornal, resolvi abandonar o paletó e dar um passeio à beira-mar ao cair da tarde. A cidade esplendia de pessoas de todas as nacionalidades, tamanho, raça, cor… a vida abrindo-se em leque pelas calçadas, múltipla, variegada, parecia querer abanar o Cristo de pedra-sabão com seus movimentos, em conjunto, lentos e magistrais… uma babel de línguas enfeitiçava o ar, dando voz ao silêncio da maresia, fazendo do Rio a terra de toda a gente, como um dia falou, em tom menor, o poeta Manuel Bandeira. A Copa das Copas terminara a sua fase de grupos e as pessoas andavam pelas ruas como se passassem por portais entre, no mínimo, duas dimensões: a dos fantasmas da volta da rotina cotidiana e a do encantamento vivido diante das pelejas e gestos imprevisíveis deste mundial…

Cada um que exibia a camisa de seu país, e dos clubes de futebol mais amados de seu país, as envergavam como estandartes de luz, sequiosos por fazer história. O que me trazia, em quadros vivos à memória, ações e gestos marcantes ocorridos nesta Copa: seja por sua grandeza trágica; por ironias do destino; pelos impulsos revelados no coração da realidade, advindos das lonjuras do inconsciente mais profundo, individual ou coletivo; seja pelo atavismo cultural menos óbvio e mais passional possível.

Quem, em sã consciência, diria que a Costa Rica seria a sobrevivente vitoriosa, sem um arranhão, do Grupo da Morte? Quem diria que seleções campeãs ou tradicionais como Espanha, Inglaterra e Portugal voltariam para a Europa no primeiro navio de carga que atracasse no cais? Arúspices, xamãs, pais de santo, pitonisas, videntes de fundo de quintal seriam desmoralizados e morreriam de fome se vaticinassem, em êxtase, tais resultados.

E os lances, as atitudes, os movimentos – dramáticos e incontornáveis – que emergiram dos verdadeiros campos de batalha em que se desenrolaram as pelejas nessa Copa do ataque de coração aberto, do inesperado, do imprevisível? E a cotovelada nas costas dada pelo meia de Camarões no atacante croata? E os pênaltis não marcados e os marcados de modo duvidoso, a partir de representações canastronas dos jogadores atores de ocasião? E o lateral uruguaio que se recusou a sair de campo, ainda que combalido, não querendo abandonar por nada a arena de combate? E a dentada inapelável, infantil, arcaica, voraz, cega de Luisito Suárez? O que dizer desse gesto vindo das regiões mais insondáveis do ser? Que rito mágico quer recuperar a dentada metafísica do atacante da seleção Celeste Olímpica?

Lembro que em novembro de 1957, numa crônica para a Manchete Esportiva, escrevi sobre uma cusparada que Dida, jogador do Flamengo, lançou na bola, antes de Osmar, do Canto do Rio, bater uma penalidade nos últimos minutos do jogo, que daria o empate para o time de Niterói, perdendo então, àquele momento do match, por 2 a 1. Chamei-a de cusparada metafísica e a elegi como meu personagem da semana. Sim, a cusparada que não deixou a bola entrar e deu a vitória ao Mais Querido. O que moveu o atacante uruguaio, reincidente pela terceira vez, ainda que sabendo-se sob os mil olhos do monstro das câmeras de tevê, para repetir de novo a mesma ação obscura? Quais forças, místicas e profundas, o levaram àquela dentada transcendente e insólita?

E justo no momento em que tais reflexões me visitavam, surge à minha frente o Filósofo Botocudo, o sábio pós-moderno das florestas tropicais. O xamã do tronco lingüístico Macro-Jê vinha com andar elegante, como se desfilasse numa passarela internacional de moda, de bermuda jeans, sem camisa, de óculos escuros Maui Jim, com os seus indefectíveis botoques labiais e auriculares, colares e cocares de penas, o corpo untado de cinza, jenipapo e urucum, com um escapulário escrito Uruguai sobre os ombros e pescoço, segurando em uma das mãos o seu iphone.

Ao me ver, abriu um sorriso familiar, íntimo, de quem encontrava, finalmente, um irmão de alma e tribo, após longa jornada intangível pelos universos místicos e insondáveis, que visita com freqüência, a fim de negociar com os milhares de espíritos da natureza e da cidade. Sem poder conter a felicidade de encontrar criatura tão especial e amiga, dei-lhe um abraço fervoroso, fazendo-lhe, inevitavelmente, a pergunta que não quis calar: “Por que escapulário do Uruguai, sábio tropical? Abandonou a seleção canarinha, a nossa pátria de chuteiras?”

O Filósofo Botocudo, então, respondeu, pausadamente, de modo claro e firme, como quem conversa em pé de igualdade com montanhas, árvores milenares, noites cósmicas, penhascos e prédios de aço e vidro:

– Sr. Nelson minha alma transborda de contentamento ao reencontrá-lo, mestre das palavras encantatórias! O Sr. é o único homem branco que sabe manipular as potências dos significantes flutuantes, que abrem os portais que levam às muitas dimensões e mundos espirituais! Só o Sr. pode compreender a homenagem que estou prestando ao descendente contemporâneo da tribo amiga dos guaianás, Jês do Sul, cujos antepassados foram nossos antigos aliados em batalhas épicas contra tupis e colonizadores europeus filhos de Maíra. O bravo guerreiro Luisito Suárez merece cantos e danças imemoriais, pois apresenta ao mundo um de nossos rituais mais sagrados e tradicionais: a antropofagia…

Grande mestre do Brasil Profundo, respondi, muitos o estavam chamando de canibal, mas parecem não conhecer os ritos de nossos antepassados. Canibal come carne por fome e/ ou ferocidade, sem os cuidados detalhados dos ritos sagrados. O antropófago, por sua vez, realiza um ritual cósmico, de incorporação das forças do inimigo potente. Suárez fica a meio termo: tem um pouco do vale-tudo, de briga de rua, de teste dos limites das crianças; e tem o rito futebolístico do artilheiro solitário, brigando sempre com dois ou três zagueiros, que, para superá-los usa artifícios inesperados. Mas o que me parece mais interessante nessa história toda é que, mesmo sob o império do monstro de mil olhos das câmeras de tevê, seu instinto mais primal venha se expor de modo serial, desreprimido, incontido…

Nesse instante, vejo atravessar a rua, com seu casal de filhos lindos, um em cada braço, o “negão de ventas raciais”, o descendente bantu tricolor de coração. Estava vestido para banho de mar, assim como os filhos e, quando me viu conversando com o Filósofo Botucudo, abriu um sorriso de uma simpatia volatizada, captando a vibração que estava no ar, presságio de grandes vitórias e festas triunfais. Depois de dar um abraço apertado em mim e outro no sábio pós-moderno zen das florestas tropicais, o afrocarioca, sem meias palavras, entabula uma falação iluminada sobre o escrete, a imprensa e a torcida brasileiras:

– Sr. Nelson, está na hora do escrete brasileiro abandonar a humildade e o bom-mocismo! Se quer ser campeão, tem que entrar na guerra de foice no escuro que é uma Copa do Mundo. Todos estão dando a alma em campo pelos seus países, todos estão, inclusive nós; contudo, todos estão reclamando dos árbitros, fazendo toda sorte de pressão, dentro e fora de campo, disputando palmo a palmo o terreno e o ambiente em que se dão as batalhas! Nós parecemos dar beijinhos na testa de nossos inimigos, abraços no larápio que nos rouba em campo, tapinhas nas costas de quem acabou de nos pisar na cara! Veja o caso do pênalti genialmente cavado por Fred: a imprensa, os “entendidos” em geral, o povo das ruas, todos condenaram como se o nosso artilheiro do engenho e arte estivesse espalhando a peste na avenida! Não dá, Sr. Nelson, assim não dá! O politicamente correto é a outra face, mais adestrada e submissa, de nosso complexo de vira-latas! Temos que mudar isso já ou não seremos hexa! O futebol poético do Brasil, mesmo depois de anos de técnicos e burocratas tentando enquadrá-lo no futebol de prosa europeu, ainda é o melhor e mais bonito, o mais plástico e elegante de todos! Vamos ser campeões na categoria, na elegância, no peito e na raça! E chega de humildade politicamente correta! Agora é a hora de convencimento e empáfia! Sim, a hora de mostrar atitude e autoridade!

O “Negão de ventas raciais” parecia emanar luz por todos os poros, só faltou levitar e sair andando sobre as águas. O Filósofo Botocudo silenciou em respeito ao êxtase do descendente bantu, parecendo dialogar interiormente com todos os exus que dançavam pelo espaço impalpável ao redor do afrocarioca. A menininha mais nova puxou o rosto do pai numa carícia e disse, olhos nos olhos: – Papai, vamos dar um mergulho? Essa simples frase doce e sincera, extraordinária pela sua singeleza e tempo preciso, fez com que o “Negão de ventas raciais” retornasse a sua condição de pai cuidadoso e amoroso: – Claro, meu amor! Respondeu. E saíram os três alegres correndo e brincando pelas areias da cidade maravilhosa, rumo às águas azuis do mar!

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