Crônica de André Gardel publicada em seu blog Crônicas à moda Rodriguiana e gentilmente cedida para o Na Zaga e Nas Artes.

Amigos, após os quatro primeiros dias de jogos, tudo indica que essa será a Copa das Copas! A Copa do Mundo que, mais do que meramente histórica, arquivada nos registros oficiais como mais um evento exótico nos Trópicos, ficará impregnada na alma e nas retinas de todos como a Copa dos lances e gestos polêmicos, patéticos, trágicos, cínicos, políticos, imorais. Os idiotas da objetividade, os lorpas e pascácios irão me perguntar: – imorais, mas por quê?

Sim, imorais! Quer maior imoralidade do que aquela abertura pífia da Copa, de escola primária, de um bom-mocismo inaciano, apresentando um Brasil sorridente e submisso, num país com uma pletora de artistas e criadores vitais, experimentais, radicais, pulsantes, e que começa a fazer presente seu incontornável destino de país do futuro? Quer coisa mais imoral do que os Narcisos às avessas, que cospem na própria imagem – já que o futebol é a pátria em calções e chuteiras -, tratarem o pênalti genialmente cavado por Fred, o artilheiro do engenho e arte, como um gesto execrável, quase um acinte público, numa tradição futebolística de grandes heróis – Nilton Santos, Luizão, Rivaldo, Pelé, Branco – que ajudaram a vencer pelejas homéricas com ginga e brilhantismo na canastrice melodramática de ocasião? Quer maior imoralidade do que a acachapante derrota, proibitiva e irresgatável, sofrida pela Espanha, atual campeã do Mundo, humilhada sem dó por um 5 a 1 vingativo e desmedido aplicado pela Holanda, vice do Mundial de 2010? Quer coisa mais imoral do que o desgoverno dos gastos astronômicos, para além do padrão FIFA, num país carente de justiça social, saúde, educação e transportes dignos, na organização deslavada de uma Copa que poderá coroar o fim definitivo do complexo de vira-latas do brasileiro?

Bem, eram nessas e em outras coisas que eu pensava quando, inesperadamente, ao dobrar a esquina da Álvaro Chaves com a Pinheiro Machado, em Laranjeiras, vejo a Loura Indignada passando, como um furacão, na parte de fora da calçada. Ao me ver, estanca o passo, ilumina-se com um fulgor que só os tricolores possuem – que os distinguem de todos os outros, e que permite que se reconheçam em meio à multidão -, corre em minha direção e me abraça como se nosso encontro casual estive marcado há milênios. Depois dessa efusão de afeto pelo reconhecimento de um irmão de paixão e alma, começa a desabafar, ritmando o movimento do dedo indicador e do pé direitos, simultaneamente, a cada ênfase dada às palavras, emitidas com a dor de Valquíria wagneriana, armada de elmo e lança, recuperando o herói morto em campo de batalha, para participar do exército mítico de Odin:

– Sr. Nelson, o que está acontecendo com essa nação? É o fim dos tempos; o mundo realmente está de ponta cabeça! O Sr. está acompanhando o achincalhe, o quase apedrejamento em praça pública que estão querendo impor ao nosso artilheiro-mor, o craque do engenho e arte? Estão ofendendo descaradamente quem nos deu dois títulos nacionais e a Copa das Confederações! Meu deus! Bem que o Sr. escreveu que toda unanimidade é burra, que o videoteipe é burro, e que as hienas, abutres e chacais, os “entendidos”, sempre rosnando de frustração, voltaram a influenciar os brasileiros com suas asneiras, agora a partir da verdade gélida do monstro de mil olhos da tevê, com seu detalhes e miudezas, com seu slow-motion, com seu replay desapaixonado! Se as câmaras dissecam as imagens e comprovam a verdade dos fatos, pior para a verdade e muito pior ainda para os fatos! E a vida vivida no presente? O acontecimento que aflora no calor trágico das batalhas campais, em que os jogadores e os juízes atuam movidos por um complexo que une instinto, intuição, inteligência, reflexo, tudo junto, ao mesmo tempo, sem segunda chance, tendo que tomar decisões de vida ou morte a cada segundo e que faz do futebol a arte viva que é? Hein, Sr. Nelson, me responde! Estão criando um esporte novo, uma outra coisa, um dispositivo politicamente correto, que pode ter o nome que quiserem, menos o de futebol!

Ainda tentando me recuperar da tontura que as flechas giratórias de palavras, lançadas pela deusa anglo-saxã, me causaram, balbucio uma resposta tímida, cuidadoso e respeitoso diante do êxtase indignado da deidade:

– É, amiga tricolor, os tempos estão mudando… Mas digo, sem retoques, que Fred sofreu um pênalti óbvio, ululante, e que o zagueiro croata puxou-o pelo ombro, não de modo descarado, mas puxou-o. O juiz viu e marcou. Estamos tão acostumados com a verdadeira luta greco-romana que zagueiros e atacantes travam nas grandes áreas dos jogos do futebol brasileiro que, quando um juiz japonês marca falta num toque assim, existente porém despretensioso, desacreditamos na vítima e enchemo-nos de fúria e repulsa. A beleza plástica e dramática do lance, contudo, não pode ser desprezada e esquecida: a queda maravilhosa de nosso artilheiro, que atuou como um ator acionado representando Aquiles sendo flechado no calcanhar, numa tragicomédia escrita por um Victor Hugo embriagado… Deixa estar, Loura Indignada, continuei, a Copa está apenas começando, tenho certeza que o caneco será nosso, e que Fred, o artilheiro do engenho e arte, junto com Neymar, o bailarino do improvável, vão fazer a multidão brasileira subir pelas paredes como lagartixas profissionais, se pendurar nos lustres, dar cambalhotas de entusiasmo báquico!

Nesse instante, a deusa da Aurora Boreal é atravessada por um raio lúcido, me olha com olhos vítreos, abre um sorriso de arco luminoso e responde:

– Sr. Nelson, por isso que eu te amo! O Sr. é um poeta, vive possuído por forças sagradas, telúricas, brasileiras! Isso, a Copa está apenas começando! Fred vai calar a boca de muita gente! Principalmente dos “entendidos”! Isso mesmo, Sr. Nelson! Maravilhoso! Viva! Salve! Evoé! Um poeta delirante!

E virou-se num ímpeto repentino, como se fosse subir em seu cavalo alado de Valquíria, e seguiu em frente, andando com a elegância de uma rainha inglesa e gargalhando alto como se tivesse baixado a pombagira, repetindo as minhas últimas palavras com voz misteriosa… se pendurar nos lustres… entusiasmo báquico… lagartixas profissionais…

Como que aliviado, após o contato com aquela potência vital ctoniana, segui o meu caminho rumo ao jornaleiro, a fim de ler as manchetes dos jornais penduradas na lateral da banca. Todas louvavam o feito épico da seleção da Holanda, a divina goleada aplicada na Espanha, a invencível armada que vinha dominando o cenário futebolístico nos últimos anos, com seu estilo tic tac, com seus craques pacientes e precisos, com seu futebol envolvente, encantatório, de terço rezado em silêncio católico. Contudo, toda aquela euforia feérica da imprensa e do homem das ruas, com a certeza absoluta de que tinha despontado o verdadeiro candidato ao título, a seleção holandesa, e que as pretensões de manutenção do reinado espanhol tinham definitivamente naufragado, me incomodava e inquietava.

Enquanto tentava decifrar a sensação que me visitava, sinto pousar em meu ombro, de modo lânguido e enigmático, um objeto que me causou, de imediato, calafrio. Assim que me viro, percebo que fora tocado pela palma macilenta e lívida da mão de um velho conhecido: o Atleticano Melancólico, o Romântico das Alterosas, sempre atravessado pela coita amorosa, mas que, ao me reconhecer, desprendeu um rápido brilho do fundo dos olhos tristonhos para, logo a seguir, se perder na retina, retornando, assim, para o seu estado mórbido constante de abatimento profundo. De modo pausado e olhando para o infinito, o Atleticano Melancólico me disse as seguintes palavras:

– Sr. Nelson, é sempre um prazer revê-lo… O Sr. não imagina quanto… Vejo que o Sr. está tendo, talvez, o mesmo pressentimento que eu. 5 a 1 é um placar monstruoso, fatal, que promove duas vítimas, a que perde e a que ganha. Ao contrário do que todos estão pensando, acredito que a Holanda cavou, com os próprios pés, um doloroso e irremediável abismo: sangrou de humilhação o adversário, numa desmedida trágica, a hybris que causa o ciúme dos deuses do futebol das Copas do Mundo, que seguem, atentos, aos jogos entre equipes campeãs. Se tivesse ganhado com um sábio 1 a 0 ou, no máximo, um sóbrio 2 a 0, se não tivesse dominada pela vingança, numa cegueira crassa, não sossegando enquanto não visse a Espanha arrasada, a seleção holandesa seria, sim, pela categoria de seus jogadores e aplicação tática, candidata ao título. No entanto, a real candidata ao título, agora, é a Espanha, que precisava se revitalizar, deixar cair a máscara que pesava, precária, e dessa forma eletrizar seus brios adormecidos. A Holanda, ao espicaçar a Espanha, deu à Fúria o incentivo decisivo que faltava e, como todo vencedor convencido de sua inquestionável vitória, vai desarmar-se interiormente, perdendo o ódio e a irritação, deixando-se apunhalar pelos próximos adversários.

E mais pálido do que nunca, parando para recuperar o fôlego, após um discurso pungente e lúcido, o Atleticano Melancólico completou, de modo mortiço, mas com a eloqüência retórica de um Vieira ou de um Shakespeare:

– A Espanha foi humilhada e sabemos que a humilhação, a grande e irresgatável humilhação, confere aos homens e aos times uma dimensão nova, uma potencialidade irresistível.

Depois do que, me abraçou com leveza quase inumana, acendeu um cigarro, e ficou olhando, com suas olheiras abismais, os carros passando pela Rua Pinheiro Machado, em Laranjeiras, na Cidade Maravilhosa pela manhã, como se fosse o viajante acima do mar de névoas do arquifamoso quadro do romântico germânico Caspar David Friedrich.

Anúncios