Ufa! Salve, Júlio!

Tostão na Copa – Folha de S. Paulo – Copa 2014 – D6 – Domingo, 29 de junho de 2014

A história se repetiu. O Brasil eliminou o Chile, nas oitavas de final. Que sufoco! Nos pênaltis. Até o árbitro do jogo foi o mesmo de 2010.

O primeiro tempo foi eletrizante. Os dois times fizeram bem o que fazem sempre, a pressão sobre quem está com a bola. Assim, saiu o primeiro gol, e quase o segundo, do Chile. Dessa forma, o Brasil criou algumas chances de gol e marcou, como se esperava, em uma cobrança de escanteio. O Chile tinha mais posse de bola, e o Brasil abusava dos chutões e dos lançamentos longos. Neymar teve chance de fazer uns dois gols, mas não estava com sua habitual precisão.

No segundo tempo, pouco mudou. O Brasil continuou sem meio-campo e com chutões e passes longos. O Chile teve uma grande chance e não aproveitou. Hulk fez um gol, anulado pelo ábritro, discutível. Nos últimos 15 minutos e na prorrogação, os times estavam mortos, o Chile mais que o Brasil. Por isso, se limitou a segurar o jogo. Mas, no fim, teve a grande chance, em um chute na trave. Por pouco, o Brasil ficava de fora. E, nos pênaltis, para aumentar a emoção e o sofrimento, o Brasil ganhou a vaga. Neymar, que não foi bem durante a partida, fez o gol na quinta cobrança.

Julio CesarO brasil se classificou, mas jogou mal. Não foi nenhuma surpresa o jogo difícil e igual. Coletivamente, o Chile é melhor. Individualmente, o brasil tem dois zagueiros excepcionais e Neymar. Se ele estivesse mais inspirado, a seleção teria vencido no tempo normal. O problema do Brasil não foi emocional. Foi técnico e tático. Haverá novos sufocos. Mesmo assim, o brasil continua forte candidato ao título. Há muitas seleções boas, mas nenhuma excepcional.

Os destaques do Brasil foram Thiago Silva, David Luiz e Júlio César, que, além dos pênaltis, fez uma defesa espetacular. Os outros foram mal ou muito abaixo do que poderiam jogar.

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Bando de locos

Lígia Mesquita – Folha de S. Paulo – Copa 2014 – D16 – Domingo, 13 de julho de 2014

argentinoToda vez que o alarme sonoro toca, Nahuel Zarate, 27, sabe que é hora de abrir os olhos e se mover um pouco para a esquerda. O despertador que acorda o argentino é o avisod e que o portão da garagem do edifício na avenida Atlântica com a rua Hilário de Gouvêia vai abrir.

É sob a marquise do prédio que o estudante de administração e mais quatro amigos da Baía Branca, província de Buenos Aires, dormem nos últimos dois dias, desde que chegaram ao Rio para acompanhar a seleção argentina na final da Copa. Eles se revezam para esticar o corpo por algumas horas no carro.

Quem não consegue um lugarzinho no veículo encara o chão molhado de chuva.

Na manhã deste sábado (12), após passar a noite nos bares da Lapa, ele conta que estava um “pouco mais difícil” dormir no chão. “Mas todo esse esforço vale a pena. É a final de uma Copa!”, diz.

“Os torcedores argentinos não ligam para conforto. Queremos apoiar nosso país. Fazemos por amor ao futebol.”

No edifício ao lado de onde estava Zarate, três argentinos dormiam na calçada, mas na porta de entrada do local. O porteiro Francisco Silva, 42, teve de intervir.

“Eu pedi a eles que não ficassem na porta porque os moradores precisam entrar e sair. Eles entenderam numa boa.” O funcionário, que trabalha há sete anos no prédio, conta que só na Jornada Mundial da Juventude, no ano passado, viu gente “acampada” na avenida Atlântica.

“Era pra ver o papa, agora é pelo futebol. Os argentinos são muito animados!”

Os carros argentinos tomaram conta de quase todas as vagas disponíveis na orla de Copacabana. A maioria dos hermanos diz que nem tentou ir aos acampamentos disponibilizados pela Prefeitura do Rio, porque já não havia mais vagas em alguns e porque era longe da praia.

A estimativa do governo estadual e do Consulado da Argentina é que 100mil argetninos estejam no Rio neste fim de semana devido à final.

“Aqui a gente tem essa praia maravilhosa na frente, a Fan Fest ao lado e os banheiros com chuveiro no calçadão. Está ótimo”, diz o professor de educação física Gabriel Pogliese, 45, que viajou da província de Santa Fé com o pai de 84 anos, a mulher e duas filhas pequenas.

Sua caminhonete era uma das mais fotografadas na avenida Atlântica, por causa da “cozinha” montada na parte traseira. Salames pendurados, macarrão e biscoitos, além de vinho e cerveja compunham a cesta básica. “Não dava para perder a chance de estar numa Copa ao lado do meu país. A gente nem liga mais de dormir sentado.”

Seu vizinho de estacionamento, o comerciante Edgar Perez, 50, também de Santa Fé, provocava os brasileiros. Com as quatro portas de seu carro aberto e som no volume máximo, ele escutava repetidamente um CD com três versões diferentes da canção “Brasil diceme qué se siente” (que diz que Maradona é melhor que Pelé). “Está tudo na páz, os brasileiros são amáveis, mas a gente gosta de uma provocaçãozinha.”

A música divertia os colegas de acampamento improvisado, Gonzalo San Martin, 26, e Juan Ignacio Ortega, 27, que percorreram quase 3.000 km do Chaco ao Rio e preparavam o almoço ao ar livre, fritando pedaços de carne e cozinhando macarrão em cima de um banco na calçada.

Moradora de Copacabana, a aposentada Jane Fernandes, 60, não resistiu à cena inusitada e pediu para tirar uma foto com os argentinos. “É uma alegria ver essa festa, ver os sacrifícios que eles fazem. Amanhã estou com a Argentina!”

Garra x Arte

Alex Sabino e Fabio Victor – Folha de S. Paulo – Copa 2014 – D7 – Domingo, 13 de julho de 2014

alexargA equipe que tem o maior atacante do mundo vai se defender. A seleção que ganhou três títulos jogando um futebol pragmático vai atacar.

Argentina e Alemanha decidem neste domingo (13) a Copa do Mundo, no Maracanã, Rio, a partir das 16h, com mentalidades distintas.

Os alemães buscam algo inédito: uma taça com futebol bonito e sendo favoritos.

A Argentina entrará com três dos atacantes mais caros do planeta: Lavezzi, Higuaín e Messi. Este, o único jogador escolhido quatro vezes o melhor do mundo (de 2009 a 2012). Apesar do poder de fogo, só se encontrou no torneio quando fechou o meio-campo e passou a se defender melhor.

O símbolo da garra nacional argentina passou a ser Mascherano. O volante que deu carrinho decisivo contra a Holanda na semifinal e evitou gol certo de Robben confessou ter “aberto o ânus” na jogada. Seu futebol só cresceu quando passou a ter Biglia a seu lado na proteção à zaga.

Um cabeça de área convocado para ser reserva de Mascherano, a quem classificou como o seu maior ídolo.

Com os dois, a Argentina vai buscar fazer o que o Brasil não tentou nos 7 a 1: congestionar o meio-campo.

Em todos os seus títulos, a Alemanha esteve associada a goleiros de gelo, defesas intransponíveis, disciplina tática, contra-ataques mortais e jogadas aéreas – o receituário clássico do futebol-força.

Bechenbauer, Rummenigge e Mattäus eram chaques, exceções de futebol-arte a confirmar a regra.

Tanto que, em suas três conquistas, a Alemanha jamais chegou à final como protagonista. Em 1954 e 1974 derrotou Hungria e Holanda, respectivamente. Dois rivais que revolucionaram o futebol, mas que sucumbiram diante da eficiência germânica. Em 1990, a Alemanha bateu uma Argentina devastada por contusões e com um Maradona sem condição de jogo.

VIRADA
A virada ocorreu em 2006, quando, ao sediar a Copa, começou a surgir na Alemanha uma geração de ouro, que tinha como virtudes a qualidade técnica, o toque refinado, a velocidade, a versatilidade e a fome de gol. A defesa é que passara a ser o ponto fraco.

Integravam o grupo Lahm, Schweinsteiger e Podolski, além de Klose. O time caiu na semifinal e foi terceiro.

Quatro anos mais tarde, apareceram mais talentos no projeto alemão iniciado em 2002, como Özil, Müller, Khedira, Neuer e Kroos. A Alemanha jogou bonito, mas foi novamente eliminada na semifinal. Voltou a ser terceira.

Neste domingo, as duas gerações se encontram, reforçadas por uma terceira fornada, da qual fazem parte Hummels, Schürrle e Götze.

Esse elenco talentoso, que atingiu seu auge ao massacrar o Brasil, tenta enterrar o estigma de “quase chegar lá”.

MUDANÇA
Alejandro Sabela, o técnico argentino, flertou com o ofensivo 433 na primeira fase. A partir das oitavas de final, percebeu que a fragilidade da defesa exigia mudanças. Trocou Fernández por Demichelis no miolo da defesa. O estilista e displicente Gago deu lugar ao disciplinado Biglia. Lavezzi virou meia.

Pode não ser bonito, mas nos últimos três jogos a Argentina não sofreu nenhum gol.

Mais que isso: uma retaguarda acostumada a dar espaços para os rivais quase não foi ameaçada. Sabella montou um esquema que anulou Robben na semifinal.

A Alemanha chegou para ganhar e encantar o mundo com o toque de bola entre Kroos, Müller e Khedira. A Argentina veio para ganhar e ponto final. Pode ser com uma jogada genial de Messi, mas, se for com um carrinho Mascherano, que seja.

Será a terceira final de Copa entre as seleções, que já decidiram em 1986 e 1990.

Depois de ter massacrado o Brasil, espera-se que a Alemanha ganhe a taça com futebol bonito. A Argentina quer vencer. Se for possível jogar bem, ótimo. Se tiver de ser campeão se defendendo, não há problema. “O que fica é o resultado”, definiu o atacante Higuaín.

A inveja do Maracanã

Juca na Copa – Folha de S. Paulo – Copa 2014 – D13 – Domingo, 13 de julho de 2014

maracanãO Maracanã não merecia mesmo receber a seleção brasileira depois que ela levou dez gols seguidos no Mineirão e no Mané Garrincha.

O Maracanã não é palco para bedéis incompetentes e crianças mimadas.

Se a Holanda mereceu o terceiro lugar, a seleção brasileira mereceu o sexto, isto é, cesto. E, qualquer que seja o vencedor neste domingo, só nos restará aplaudir, em pé, os vitoriosos e os vice-campeões.

Alemães e argentinos despertam hoje aquele sentimento que normalmente deve ser combatido, mas que pode invadir nossos sentimentos de maneira positiva, pelo que nos ensina.

A seleção alemã é melhor, mais forte e com mais craques decisivos. A argentina também é organizada, tem o melhor jogador do mundo e é de uma aplicação tática impressionante.

Os germânicos representam o coroamento de um processo formidável de modernização de seu futebol nos últimos 14 anos. Os hermanos não, porque padecem quase de todos os mesmos males do nosso futebol: cartola que se eterniza no poder com métodos deploráveis e estrutura voltada para exportar pé de obra com uma escola tão talentosa como a brasileira, mas com a diferença de ter técnicos contemporâneos capazes de ser entendidos por jogadores culturalmente mais bem preparados que os nossos. Sim, também no esporte o sistema educacional faz importante diferença.

Além do mais, as duas seleções parecem ter tamanho equilíbrio psicológico que mesmo após as verdadeiras batalhas travadas para chegar à grande decisão, descontado, é óbvio, o atropelamento do Mineirão, fizeram festas comedidas e sem choro nem vela.

A torcida brasileira deve ser pelos europeus, prova de que a síndrome de Estocolmo (Berlim?) dirá presente no Maracanã. Apenas a minoria dos patrícios apoiará os hermanos, entre os quais o colunista se inclui.

Foi-se a Copa?

Foi-se a Copa? Não faz mal.chorando
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Carlos Drummond de Andrade

Sabe, sabendo

Tostão na Copa – Folha de S. Paulo – Copa 2014 – D5 – Domingo, 6 de julho de 2014

Neymar sonhou com o título e em ser o melhor da Copa e do mundo, em 2014. Após o abalo inicial, como se fosse uma tragédia para a seleção, agora, já dá para acreditar que continuam boas as chances de o Brasil ganhar o Mundial, mesmo sem Neymar e, contra a Alemanha, sem Thiago Silva, outro craque. Para isso, todos os jogadores precisam se superar, atuar com a mesma garra das partidas anteriores e com mais qualidade. Seria possível David Luiz, outro craque, jogar ainda mais?

Na Copa, mesmo as seleções menos fortes e menos tradicionais possuem bons jogadores e ótimo conjunto. A maioria dos atletas atua em campeonatos importantes, e alguns, nas principais equipes do mundo. Todas as seleções dominam o conhecimento científico e a logística de preparação de uma equipe.

dnaDizem que os EUA, obcecados pela competitividade, programaram, dez anos atrás, que, em 2018, vão disputar o título. Será cedo, pois falta o fora de série e/ou vários jogadores excepcionais. Será que, com a massificação do futebol, que está a caminho, surgirão vários jogadores especiais? Ou isso não vai ocorrer porque não está no DNA dos norte-americanos? O futebol é diferente de outros esportes. Não basta dominar a técnica, o conhecimento e treinar muito.

Em um jogo, há muita imprevisibilidade e grande número de possibilidades. Não é possível extrair o talento de um craque e reproduzi-lo no campo e no laboratório. O craque sabe fazer, mas não sabe como fazer. Não dá para ensinar sua arte. Ele sabe, sabendo. Ontem, foi mais um dia de craque, na dificílima vitória da Argentina sobre a Bélgica, por 1 a 0. Messi não fez nada de extraordinário, perdeu um gol, mas deu belíssimos passes e participou bastante do jogo. A Argentina foi um time com mais cuidados defensivos. A defesa, tão criticada, novamente, não sofreu gol.

Entre a ousadia e a cautela

O Globo – Copa 2014 – Terça-feira, 8.7.2014

Por que será que o destino
Silencioso trabalha
Deixando o nosso menino
De fora dessa batalha?
Será que nas horas mortas
Tirando uma de esperto
Escreve por linhas tortas
O nosso caminho certo?

O destino é muito forte
Vive com fogo a brincar
Às vezes arrisca a sorte
Dando mole para o azar
Vai traçando e nada escuta
Não é um porto seguro
E deixa que a força bruta
Se imponha ao talento puro

O destino não é claro
E nem tem medo do escuro
No tempo do desamparo
Ofusca a luz do futuro
E aí só mesmo os profetas
Pensadores geniais
Os anciãos, os poetas
Perceberão os sinais

Eu vou zombar do destino
E confiar no meu taco
O que vier eu assino
Como dizia o Polaco (Leminski)
O destino é tudo ou nada
O que rolar eu aceito
Se a bola vier quadrada
Eu vou matá-la no peito

Por tudo isso eu testino
A Neymar este poema
Um gigante pequenino
Que não esquece o seu lema
Cumprindo bem o seu rito
Mesmo que fora de ação
O tempo todo em espírito
Joga com a seleção

Moraes Moreira
(Poema “Neymar e o nosso destino”)

A voz da arquibancada sempre foi chula

Renato Maurício Prado – O Globo – Copa 2014 – Segunda-feira, 16.6.2014

dilma

Vou mexer num vespeiro, mas não consigo mais ficar lendo e ouvindo tanta bobagem calado. Após os já famosos coros grosseiros contra a presidenta (como ela gosta de ser chamada) Dilma Rousseff, no jogo de abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, vozes puritanas começaram a surgir de todos os lados, defendendo uma utopia. Em resumo, dizem o seguinte: protestar, tudo bem, mas não com ofensas tão pesadas contra uma mãe, avó e principal mandatária política do país.

Ora bolas, quando a voz da arquibancada foi educada ou preocupada em não ferir susceptibilidades? Desde que me entendo por gente (e bota tempo nisso) os coros cantados nos estádios (ou arenas, como preferem os “modernos”) sempre rugiram os mais ofensivos e obscenos cânticos de provocação ou louvação – sim, até para elogiar e exaltar, palavrões são usados e bem-vindos. Exemplo: “PQP, é o melhor goleiro do Brasil”, como a torcida do Flamengo saudava o seu, hoje em dia encarcerado, ídolo Bruno.

Por que com Dilma seria diferente? Foi constrangedor? Foi. Eu mesmo me senti assim. Mas era pra ser. Esse é o intuito do torcedor quando reunido em massa e coro numa arquibancada.

Nesses momentos, em que há séculos as mães dos árbitros são chamadas de putas sem que ninguém (nem os próprios juízes se ofendam), não há decoro, cuidados ou piedade.

Dias após a trágica morte do talentoso atacante Denner, do Vasco da Gama (num acidente de carro, na Lagoa), disputou-se um clássico com o Flamengo, e, com o Maracanã entupido de tanta gente, a torcida rubro-negra entoava, simplesmente, o seguinte:

“Ei, você aí, o Denner já morreu, só falta o Valdir”!

Valdir Bigode era o centroavante do time da colina. mas não pensem que a crueldade e a grosseria são exclusivas dos fãs do Mais querido. Nos tempos em que o atual goleiro da seleção Júlio César atuava no Flamengo, as torcidas rivais o saudavam com duas musiquinhas alusivas ao fato de Suzana Werner, sua esposa, ter sido antes namorada de Ronaldo Fenômeno:

1) “Ô Júlio César, como é que é, o Ronaldinho já… sua mulher”!

2) “Ô Julio, seu v… inho, sua mulher já deu o… pro Ronaldinho”!

Triste, não? Mas, infelizmente, é assim que a banda toca nso campos de futebol. Que o digam as poucas mulheres que se aventuram na arbitragem. São sempre chamadas em coro de “gostosas”, “piranhas” etc. Perguntem à bandeirinha Ana Paula Oliveira como a tratava a torcida do Botafogo, após cometer dois erros graves contra o Glorioso…

Duvido que qualquer um dos indignados já não tenha disparado impropérios dos mais vulgares num jogo de seu time, pouco se importando se ao seu lado havia senhoras ou crianças.

Como costumava dizer o saudoso, genial (e genioso) colunista Zózimo marroso do Amaral, “o mais refinado gentleman se transforma no mais sórdido canalha ao sentar a bunda numa arquibancada”.

Num estádio, até criancinhas se divertem, dizendo “nomes feios”, na maioria das vezes sem nem saber direito o que eles significam.

Eu e minha mulher mesmo fomos surpreendidos quando levamos pela primeira vez ao maracanã a nossa filha, então com oito anos.

Bastou um momento de distração, e a pequerrucha, com sua vozinha inocente, desandou a acompanhar a plenos pulmões, o coro que vinha da arquibancada. E era o seguinte:

“Por…, Ca…, VTNC, quem manda nessa M… é a torcida do Urubu”!

Como vê, cara presidenta, não dá para fazer drama. Quem está na chuva é para se molhar, diriam os mais velhos. Ou, como preferem os mais jovens, “não sabe brincar, não desce pro play”.

Com a crescente onda de insatisfação popular – e não é apenas de “riquinhos”, como agora tentam distorcer (que o digam as manifestações, onde o palavreado é tão chulo quanto no futebol) – é melhor evitar aglomerações. Nas ruas e nos campos.

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Qual a diferença?

Quando jogam sapatos, tortas, ovos etc. nos políticos lá de fora, aplaudimos, dizendo: se fizessem isso aqui, não haveria tanta sem-vergonhice…

Explicações prontas

Tostão na Copa – Folha de S. Paulo – D4 – Domingo, 15 de junho de 2014

As análises já estão prontas para o fim da Copa. Certas ou erradas, independentemente dos fatos. Isso não acontece apenas no futebol. A maior parte da vida é programada. Os descuidos, desvios, são exceções.

torcida

Se o Brasil for campeão, o fato de jogar em casa, apoiado pela torcida, será exaltado. Se perder, os jogadores não suportaram a pressão, a responsabilidade. Se a Espanha for eliminada na primeira fase, ou mesmo em um jogo mata-mata, a culpa será da decadência dos jogadores e do estilo. Se o time for campeão, será por causa da experiência.

Se a Holanda continuar brilhando, mesmo sem ser campeã, serão valorizados a irreverência dos jogadores, os banhos de mar e os passeios pelo Rio e por outras cidades. Se for eliminada, dirão que faltou seriedade e concentração.

Se a Alemanha for campeã, a privacidade, em uma bela praia da Bahia, será positiva. Se perder, falarão que a seleção ficou isolada, solitária. Se a Argentina conquistar o título, as únicas razões serão messi e o poderoso ataque. Se perder, os culpados serão a péssima defesa e a apatia de Messi.

Se o Chile fizer ótima campanha, mesmo sem ganhar o título, a avalanche com o que o time vai para o ataque será elogiada. Se for eliminado na primeir afase, será porque o futebol moderno não admite mais defensores baixos nem um jogo muito ofensivo.

‘Não me sinto pressionado por nada’

Maurício Prado – O Globo – Copa 2014 – Terça-feira, 10.6.2014neymar

Neymar, na contramão da suposição geral, garante que não se sente pressionado por ser a maior esperança do Brasil ao hexa. Aos 22 anos, diz que, pelo contrário, sente-se feliz com a missão. Em entrevista à revista “Red Bulletin” que só sairá em julho, cedida com exclusividade ao Globo, ele revela que estuda vídeos dos dribles de outros jogadores para coliá-los. E assegura que não há estrelismos na seleção: “Como a gente trabalha em equipe e se ajuda, tem muita chance de dar certo”.

Como você lida com a pressão do país, esperando que você ganhe a Copa?
Era o meu sonho desde criaça, e hoje isso está bem na minha frente: sou o camisa 10 do Brasil e vou jogar a Copa do Mundo, e no meu país. Não consigo encarar como pressão. Tem que ser motivo de orgulho e alegria para entrar em campo. Todo mundo diz que vencer uma Copa do Mundo é uma alegria indescritível, e eu quero muito sentir isso. Quero gritar “É campeão!” Todo mundo fala: “Você tem a responsabilidade de ser o grande nome da seleção.” Não me sinto pressionado, me sinto feliz. Sempre fiz as coisas do meu jeito. A imprensa corre atrás de mim desde que eu tinha 13 anos, dizendo que eu seria o novo Robinho. Sou um cara que não fica encanado. Se ninguém me lembrar que sou o Neymar, jogador do Barcelona e do Brasil, vou esquecer isso. As pessoas imaginam que eu sou como me veem na televisão, mas sou completamente diferente, porque não me sinto pressionado por nada.

Do que você se lembra da última vez em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo em 2002?
Eu tinha 10 anos, já entendia o futebol. Acordeid e madrugada para assistir à final em casa. Até cortei o cabelo igual ao do Ronaldo. Assisti ao jogo com meus pais e minha irmã, todo mundo junto. Depois, fomos para a casa da minha avó, comemos um churrasco, todo mundo gritando “é campeão!”, como torcedores fanáticos. A Copa do Mundo sempre foi o objetivo da minha vida. É engraçado que hoje esteja perto de se realizar.

Um de seus maiores talentos é o drible. Você copia dribles ou se inspira em algum jogador?
Acompanhei o Robinho de perto, porque, quando fui pro Santos, ele era a estrela do time. Ele é meu ídolo e driblava muito. Vejo muito Ronaldinho, Ronaldo, Messi, Cristiano Ronaldo. Já assisti a vídeos de todos os jogadores habilidosos que você possa pensar. Nos bate-bolas e nos treinos, tento fazer o mesmo que eles e, quando é pra valer, acontece naturalmente. Os dribles são uma questão de prática. Não tenho nenhum até agora que tenha inventado. Faço dribles normais, como usar o copor para enganar o adversário, ou dar o passo em falso, que eu treino e uso bastante. Eu usei a roleta (giro com a bola) do Zidane. Copiei muito.

O seu futebol parece cheio de alegria. Você ainda sente alegria enquanto joga ou é mais como um emprego agora?
É engraçado que é algo que precisa ser administrado. Você precisa ser sério em relação a isso. Mas estou sempre feliz quando jogo. Quando você está feliz, as coisas funcionam naturalmente. Quando você está triste, as coisas nunca funcionam.

Como você encara a sua primeira temporada no Barcelona?
Não foi perfeita, mas também não foi ruim. É a primeira vez que eu estava vivendo fora do meu país. Sinto falta dos meus amigos e da família. Foi difícil no começo, mas aprendi muito tanto profissionalmente quanto na vida pessoal. Estudo meus colegas de time, sobre o que eles conversam, como eles agem com as outras pessoas. Pego um pouco de cada jogador e adapto ao meu estilo. Algumas pessoas são boas no campo, outras fora deles, algumas se comportam bem nos treinos… Eu incorporo as qualidades de cada um.

O que mais te chamou atenção em relação ao Messi? Agora vocês estão juntos quase todos os dias…
Ele me surpreendeu de todas as formas. Antes de chegar aqui, escutei algumas coisas horríveis, como ele ser muito reservado e não falar com ninguém. Agora vejo tudo de maneira completamente diferente. Além de ser um gênio, fora do campo ele é sempre 100% comigo. Não apenas comigo, mas quando vejo ele com outras pessoas, também. Não tenho nada de ruim para dizer sobre o Messi.

Na seleção, quem escolhe as músicas no vestiário?
Varia. Todos podem escolher o que ouvir. As pessoas tendem a gostar de pagode, funk, sertanejo… Sempre vou para o estádio, usando meus fones de ouvido, escutando gospe. Daí, para agitar, botamos um pagode para todo mundo ouvir. Somos todos muito amigos, fazemos brincadeiras, os egos ficam de fora. Na seleção, temos um único objetivo. Como a gente trabalha em equipe e se ajuda, tem muita chance de dar certo.

O Felipão fala bastante do penta de 2002 com vocês?
Sim, bastante. Ele fala que a Copa é o torneio mais difícil. Não tem espaço para erros, tem que estar a toda velocidade desde o começo. É um torneio curto em que a margem de erro é muito menor que nas outras competições.

O Brasil vai levar?
É a coisa que eu mais quero na vida.

É dura a vida da gandula

Zuzana Velasco – Revista O Globo – Carreira – 8 de junho de 2014

Elas estarão à beira do campo, em pleno Maracanã em jogos da Copa do Mundo, mas não poderão torcer, comemorar gols nem interagir com jogadores ou torcedores. Para seguirem as insrtuções do árbitro, conforme o treinamento dado pela Fifa, terão não apenas que conter a energia de adolescentes, mas a vontade de pôr a bola no pé. Yzmara Alves, Samara Lino, Kauany Dias e Kauany Sousa nunca pensaram que seriam gandulas do Mundial. Foram presenteadas simplesmente por fazerem bem o que mais gostam: jogar futebol.

gandulas

Quatro vezes por semana, Yzmara, 14 anos, sai de Bangu, depois da escola, e segue para o Aterro do Flamengo ou para a base da Força Aérea Brasileira, no Campo dos Afonsos, para treinar com o time feminino Chicago BR. Às vezes almoça no ônibus para não chegar atrasada; eventualmente, deixa de passar em casa para economizar.

– Difícil é estudar. Estudar e jogar futebol é muito difícil – diz Yzmara, que faz curso preparatório para entrar no Colégio Militar e quer se profissionalizar como jogadora fora do Rio, quiçá do país, pela falta de incentivo ao futebol feminino. – Tenho amigos que disseram: “Ah, gandula não é nada.” E eu respondi: “Você vai ao Maracanã em algum jogo da Copa?” Eles ficam quietos.

O nome da função vem do atacante argentino Bernardo Gandulla, que costumav abuscar a bola fora de campo, mesmo que ela estivesse de posse do time adversário. Numa versão mais irônica para a origem do nome, dizem que a regularização do seu passe pelo Vasco da Gama, em 1939, demorou dois meses. Enquanto isso, ele assistia aos jogos e devolvia as bolas.

Na Copa, o privilégio de estar à beira do gramado, cara a cara com os maiores jogadores do mundo, tornou cobiçada a tarefa de buscar as bolas e retorná-las aos times – garantindo que apenas uma Brazuca esteja em jogo.

Nas 12 cidades-sede, a missão será de 445 meninos e meninas de 13 a 16 anos, que jogaram nos times vencedores da Copa Coca-Cola de futebol do ano passado, da qual participaram cerca de dez mil jovens. A empresa, uma das patrocinadoras do Mundial, ganhou da Fifa o direito de escolher os gandulas das 64 partidas, assim como na Copa das Confederaçoes, em 2013.

– Estou muito ansiosa, nunca fui ao Maracanã depois da reforma. Não quero fazer besteira porque o gandula pode até ser expulso – diz Samara, 15 anos, que passa até três horas seguidas fazendo embaixadinhas na varanda de casa, na Barra.

APRENDIZADO COM OS MENINOS

Os escolhidos entre 700 jovens, após um treinamento prático e teórico, quase não puderam participar da Copa. Em abril, o Ministério Público do Trabalho tentou impedir que menores de 18 anos fossem gandulas, alegando proibição do trabalho infantil, mas a ação foi negada.

Entre as orientações da Fifa, eles aprenderam que não podem pular a placa de publicidade e precisam voltar à sua posição após recolher a bola – que deve ser devolvida no tempo certo, sem lentidão ou pressa. Em 2012, a gandula Fernanda Maia ficou famosa quando, ao repor uma bola com extrema rapidez na final da Taça Rio, favoreceu o primeiro gol do Botafogo, que venceu o Vasco por 3 a 1.

Fernanda logo virou musa. Já as gandulas mirins só estão interessadas em jogar, e já se acostumaram a ouvir deboche dos meninos, que desdenham da sua capacidade. Quando dizem que jogam futebol, todas ouvem coisas do tipo “mulher não joga nada”.

– As pessoas diziam: “Vai jogar bola? Você é uma menina!” Mas os meninos se machucavam e paravam de jogar; eu não. Toda vez chegava em casa com o joelho machucado, o dedo aberto. Agora quando formam time no bairro nunca se esquecem de me chamar – conta a zagueira Yzmara, que começou a jogar em campo de areia, no time do Bangu, e gosta de Thiago Silva e Marcelo, da seleção brasileira.

Com a escassez de meninas tão cedo interessadas em futebol, elas entraram ainda crianças para escolinhas só de meninos, e contam que eles param com as gracinhas quando as veem jogar. Para Samara, o futebol era a única opção para fugir das aulas de balé na escola, aos 7 anos de idade. Mas ela tomou gosto, e aprender com os meninos se tornou uma opção.

– Depois do ensino fundamental entrei numa escolinha só de garotos, porque eles são mais fortes do que as meninas, e eu queria melhorar – conta a vascaína, lateral direita e fã dos jogadores do Barcelona Messi, Neymar e Iniesta, que, na Copa, defenderão a Argentina, o Brasil e a Espanha, respectivamente. – Quero fazer faculdade nos Estados Unidos jogando futebol. Aqui não investem em times femininos.